Liberation Festival – 25-06-2017 – São Paulo (Espaço das Américas)

Texto por André Luiz – Fotos por Edi Fortini – Edição por André Luiz

A Liberation Music Company estremeceu os headbangers de todo país ao anunciar em dezembro de 2016 um festival levando seu nome no Espaço das Américas, em São Paulo, programado para 2017 celebrando os 25 anos de atividade da produtora, e contando como headliner, com o lendário King Diamond – exclusiva apresentação na América do Sul. Passados 21 anos da única performance do rei no país – no festival Monsters Of Rock de 1996 em apresentação dupla com sua banda solo e o Merciful Fate –, o músico era uma das principais requisições do público brasileiro desde seu retorno aos palcos em 2012, após vencer árdua batalha contra o câncer. Não apenas um headliner tão aguardado fora anunciado, como nos meses seguintes o restante do cast fora anunciado: Lamb Of God (EUA), Carcass (Reino Unido), Heaven Shall Burn (Alemanha) e Test (Brasil). O resultado: milhares de fãs lotaram o Espaço das Américas em uma noite histórica para a música pesada de nosso país.

Com abertura da casa para 16h, o público era bom, porém modesto quando pontualmente às 17h30m Barata (bateria) e João Kombi (vocal, guitarra) subiram ao palco para sua performance, celebrando a marca de 500 shows da banda, 150 dos quais divulgando o seu último álbum, ‘Espécies’ (2015). O público dividiu-se entre conhecer a estrutura disponibilizada para o festival e prestigiar o energético duo. Cabe salientar o início da formação de uma imensa fila para adquirir o merchandising oficial do evento – a Liberation disponibilizou de camisetas de todas as bandas do cast à copos personalizados com grande procura pelo grande público –, não deixando de lado os itens alimentícios e bebidas a disposição dos presentes.

Cerca de 75% da capacidade da casa estava ocupada – cooperou para isso, por exemplo, o término de jogos do Campeonato Brasileiro de futebol – às 18h10m, Maik Weichert e Alexander Dietz (guitarras), Marcus Bischoff (vocal), Eric Bischoff (baixo) e Christian Bass (bateria) subiram ao palco. Promovendo o álbum ‘Wanderer’ (2016) com a tour intitulada “Passage Of The Crane 2017”, os alemães do Heaven Shall Burn abriram sua performance exatamente com as duas faixas iniciais do mais recente trabalho de estúdio, “The Loss Of Fury” e o petardo “Bring The War Home”. Retornando à 2004, do disco ‘Antigone’, um dos destaques da noite, “Voice Of The Voiceless” seguida por outra do ‘Wanderer’, “Corium”.

Às vezes a melhor interação é feita pelo peso da música, energia no palco e a surpresa de quem torcia o nariz para o anúncio da Heaven Shall Burn no cast do festival. Desta forma, Marcus Bischoff comandou os presentes em “The Weapon They Fear” – outra do álbum de 2004 –, e entre mãos para cima e pedidos de grito do público prontamente correspondidos, notava-se a clara impressão de espanto de alguns os quais conceituaram previamente uma sonoridade pessoalmente desconhecida. E para estes, ainda viria a pedrada “Combat” do ‘Invictus (Iconoclast pt. 3)’ de 2010, com a dupla de guitarristas despejando riffs no palco e Marcus correndo de um lado para o outro cativando os presentes. A intro “Awoken” prenunciou um dos principais momentos da performance dos alemães, “Endzeit” do ‘Iconoclast pt. 1’ de 2008, uma das melhores composições da banda, a faixa com maior participação do público. O encerramento veio com “Counterweight” do ‘Deaf To Our Prayers’ de 2006 e o cover para “Black Tears” dos suecos do Edge Of Sanity, finalizando uma apresentação que marcou pela energia no palco, a qual no público surtiu efeitos que mesclaram a surpresa de quem desconhecia e a euforia dos fãs da HSB.

Set List Heaven Shall Burn:
The Loss Of Fury
Bring The War Home
Voice Of The Voiceless
Corium
The Weapon They Fear
Combat
Awoken (Intro)
Endzeit
Counterweight
Black Tears (Edge Of Sanity cover)

Quatro anos após passagem pelo Brasil, eis que o Carcass retornou ao país. Liderada por Jeff Walker (vocal, baixo) e entre rumores sobre uma nova pausa na carreira, eis que os lendários britânicos adentraram ao palco do Espaço das Américas exatamente às 19h10m com a intro “1985” e a potente “316L Grade Surgical Steel”, ambas do elogiado ‘Surgical Steel’ de 2013, álbum este lançado após um hiato de 17 anos – sendo 11 destes sem atividades da banda. Acompanhado dos não menos talentosos guitarristas Bill Steer e Bem Ash, além de Daniel Wilding (bateria), o grupo de Liverpool privilegiou no repertório faixas do mais recente álbum assim como do ‘Heartwork’ de 1993 e ‘Necroticism – Descanting The Insalubrious’ de 1991, como as músicas seguintes do show, o clássico “Buried Dreams” e “Incarnated Solvent Abuse”.

Jeff agradeceu os presentes e continuou o set “Carnal Forge” e “No Love Lost”, ambas do ‘Heartwork’, saudos os fãs de países vizinhos como Chile e Argentina também presentes e retornou ao mais recente álbum com “Unfit For Human Consumption”, “A Congealed Clot Of Blood”, “Cadaver Pouch Conveyor System” e “Captive Bolt Pistol”. A faixa “Edge Of Darkness” – originalmente lançada na coletânea ‘Wake Up And Smell The… Carcass’ de 1996 – com sua intro extendida e riff tradicional fora um deleite aos fãs da banda britânica, os quais ainda puderam conferir a rápida “This Mortal Coil”– uma das principais, senão a principal composição do ‘Heartwork’ – antes do momento mais especial da noite. Clássicos atemporais dos tidos criadores do death metal melódico, “Exhume To Consume” e “Reek Of Putrefaction” são hinos do ‘Symphonies Of Sickness’ de 1989, álbum constantemente presente nos charts de melhores de todos os tempos do estilo, e foram ovacionadas pelos milhares de fãs presentes ao Espaço das Américas.

Após tão emblemático momento, a trinca final composta pelas músicas “Corporal Jigsore Quandary” e “Carneous Cacoffiny” do ‘Necroticism…’ intercaladas com a faixa-título do álbum de 1993, “Heartwork”, foram a cereja no bolo de uma parte derradeira a qual contou até mesmo com agradecimentos à King Diamond. Uma celebração do que há de melhor da essência do death metal proporcionada pelos pais do estilo os quais não precisaram mais do que um grande pano de fundo em alusão a seu último álbum de estúdio, jogo de luz menos ousado que o de outras bandas e o volume do som literalmente “no talo” para entregar ao público um espetáculo de primeira – que o diga o roadie, o qual lidou com um ventilador situado no palco chutado seguidas vezes por Jeff até ser retirado do local, os cabelos esvoaçantes que fiquem para shows de gotic metal.

Set List Carcass:
1985 (intro)
316L Grade Surgical Steel
Buried Dreams
Incarnated Solvent Abuse
Carnal Forge
No Love Lost
Unfit For Human Consumption
A Congealed Clot Of Blood
Cadaver Pouch Conveyor System
Captive Bolt Pistol
Edge Of Darkness
This Mortal Coil
Exhume To Consume
Reek Of Putrefaction
Corporal Jigsore Quandary
Heartwork
Carneous Cacoffiny

Chegávamos à penúltima atração da noite, os americanos do Lamb Of God, para um Espaço das Américas totalmente tomado pelos headbangers. Retornando à estrada na promoção do álbum ‘VII: Sturm Und Drang’ (2015) e do EP ‘The Duke’ (2016), eram 20h30m quando Randy Blythe (vocal), Mark Morton e Willie Adler (guitarras), John Campbell (baixo) e Chris Adler (bateria) estremeceram a casa de shows com o petardo “Laid To Rest” do ‘Ashes Of The Wake’ de 2004 e “Ruin” do ‘As The Palaces Burn’ de 2003. Randy saudou os presentes e pediu para que levantassem as mãos aqueles que os viam pela primeira vez, antes da primeira faixa do ‘VII: Sturm Und Drang’ ser executada, exatamente “512”.

Os fundadores da chamada “New Wave Of American Heavy Metal” seguiram presenteando os fãs com enérgicas faixas de sua discografia, mescladas no decorrer do repertório executado: “Desolation” e “Ghost Walking” do já citado ‘ATPB’, “Walk With Me In Hell” do ‘Sacrament’ de 2006, “Still Echoes” do último trabalho de estúdio, “Hourglass” e “Now You’ve Got Something To Die For” – esta última com menções cômicas à King Diamond – do ‘Ashes Of Wake’ de 2004. A primeira parte do show foi finalizada com o duo dos petardos de 2015 e 2004, “Engage The Fear Machine” – muito celebrada pelo público – e a clássica “The Faded Line”

Pausa para um breve refresco e o retorno de Chris Adler e seus asseclas ao palco para execução de dois petardos do ‘Sacrament’: “Blacken The Cursed Sun” com riff marcante e a matadora/indispensável/clássica “Redneck”, talvez o principal momento da performance do grupo de Virginia. Em meio a energia e empolgação de Randy, a destruição avassaladora do ex-Megadeth Chris Adler nas baquetas e o entrosamento do trio de cordas o qual se encontra na line up da banda há quase duas décadas, o Lamb Of God demonstrou no Espaço das Américas porque é considerado um dos grandes nomes da música pesada atual, exatos dois anos após roubar a cena no Rock In Rio.

Set List Lamb Of God:
Laid To Rest
Ruin
512
Desolation
Walk With Me In Hell
Still Echoes
Now You’ve Got Something To Die For
Hourglass
Ghost Walking
Engage The Fear Machine
The Faded Line

Blacken The Cursed Sun
Redneck

Exatos 21 anos espera, em exclusiva apresentação na América do Sul, King Diamond trouxe um container de equipamentos para presentar os fãs brasileiros com a mesma superprodução exibida na Europa durante a tour “Abigail In Concert”, executando na íntegra do clássica álbum ‘Abigail’ de 1987. Quando a canção “The Wizard” do Uriah Heep  fora executada nos PA’s, seguida pela intro clássica “Out From The Asylum” à exatas 22h19m, o alvoroço tomou conta do Espaço das Américas. Com a abertura das cortinas revelando a exuberante estrutura de palco, estupefatos headbangers direcionaram seus celulares para registrar a cena, enquanto outros apenas deleitavam-se com o momento histórico: show de luzes, músicos no palco e a presença da personagem Grandma com King Diamond ao som do petardo do álbum ‘Them’ de 1988, “Welcome Home”, bradada a plenos pulmões por todos, seguida pelo o clássico atemporal “Slepless Night” do ‘Conspiracy’ de 1989, com seu solo maravilhoso e interpretação esplendida de King Diamond – singela “boas vindas” àqueles que aguardavam o retorno do rei há 21 anos.

“Boa noite São Paulo” disse o frontman, o qual perguntou se o público estava bem e antes de uma taça com água, apresentou seus acompanhantes de banda: Jodi Cachia (performances de Grandma entre outros), Mike Wead (guitarra), Pontus Egberg (baixo), Matt Thompson (bateria), Hel Pyre (backing vocal) e por fim, para alvoroço geral, o saudoso Andy La Rocque, o qual com sua guitarra incitou a festa geral na casa de show através dos acordes do clássico do ‘Fatal Portrait’ de 1986, “Halloween”. Após novo agradecimento, o rei anunciou outro hino de sua carreira solo, “Eye Of The Witch” do álbum ‘The Eye’ de 1990, durante a qual interagiu com os presentes e solou com La Rocque em seu microfone de ossos.

O “Merciful Fate moment” era chegado. King permaneceu de costas aos presentes por alguns segundos e La Rocque brindou a todos com o solo inicial da faixa título do álbum de 1983, “Melissa”, para na sequência o frontman iniciar sua performance melancolicamente dramática, enquanto Jodi Cachia surgia no alto da estrutura de palco trajando vestido branco e dançando ao ritmo da canção. O hino do ‘Don’t Break the Oath’ de 1984 “Come To The Sabbath” foi celebrado e cantado em uníssono pela plateia, em meio a um enorme pentagrama surgindo ao fundo do palco e Jodi Cachia de vestido negro trazendo “a oferenda” e performando ao lado do rei.

Intros nos PA’s, inicialmente “Them” e na sequência o começo da execução na íntegra do álbum ‘Abigail’ com “Funeral” durante a qual King desceu das escadas, dois personagens encapuzados trouxeram um caixão com uma boneca fazendo referência à menina nascida morta contada na história do disco de 1987, e King portando um punhal o enfiou na boca da referida – ao cair do “bebê” no caixão, iniciou-se o clássico “Arrival” com seu riff cavalgante tradicional. Uma das mais populares faixas do álbum, “A Mansion In Darkness”, trouxe novo alvoroço ao Espaço das Américas, e introduziu Jodi Cachia na história, a qual surgiu de vestido branco com candelabro na mão no alto do palco. Outra música de grande aceitação dos fãs, “The Family Ghost”, prosseguiu o clima teatral com nova aparição de Jodi, desta vez simulando gravidez, caindo no último degrau da escadaria e levantando com a mão na barriga antes de deixar a plataforma.

“The 7th Day Of July 1777” trouxe uma intro com violões, King levantou ao alto um “bebê mumificado” e após o solo de guitarra, jogou Cachia pelas escadas a baixo. Durante “Omens”, o rei cantou com três rosas vermelhas na mão, Jodi surgiu trajando vestido negro no alto, segurou um candelabro e desceu as escadas. O auge das performances ocorreram nas faixas seguintes: em “The Possession” a personagem de Cachia ensandeceu na simulação de uma possessão, enquanto na faixa título do clássico álbum, a imponente “Abigail”, a moça permaneceu no palco performando enlouquecidamente. O fim era chegado, com a intro conhecida do público para o petardo “Black Horsemen” Jodi surgiu no alto das escadas trajando vestido negro, “grávida” e em meio o cantar de King Diamond “gerou o bebê” e o jogou no chão, até dois encapuzados surgirem e os levarem para fora do palco. Com “Insanity” nos PA’s, exatamente às 23h45m era encerrada uma das melhores apresentações em locais fechado já assistidas no país, fatalmente a melhor do ano no Brasil – opinião singela do autor.

Em meio a tantos eventos ou apresentações cancelados no país devido falta de profissionalismo ocasionada por amadorismo, ganância ou pura picaretagem, uma produtora completar 25 anos de existência e lisura, promovendo um festival com tamanha qualidade, tanto no cast escolhido quanto estrutura oferecida, trás um alento aos apreciadores de música pesada brasileiros. Rever bandas de qualidade como as que integraram o festival, e um headliner de tamanha expressão como King Diamond sendo reverenciado por cerca de 8 mil pessoas ao fim de quase 7 horas de evento, representou uma experiência única, mesmo para um repórter com 16 anos de experiência em coberturas. Agradecimentos à Liberation Music Company e Costábile Jr.

Set List King Diamond:
Out From The Asylum
Welcome Home
Sleepless Nights
Halloween
Eye Of The Witch
Melissa (Mercyful Fate cover)
Come To The Sabbath (Mercyful Fate cover)

Them
Funeral
Arrival
A Mansion In Darkness
The Family Ghost
The 7th Day of July 1777
Omens
The Possession
Abigail
Black Horsemen
Insanity

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