Glasya: symphonic metal com personalidade direto de Portugal – entrevista exclusiva com Davon Van Dave

Entrevista por André Luiz – Imagens por divulgação – Edição por André Luiz

Ligações históricas aproximam Brasil e Portugal culturalmente, porém quando tratamos do assunto música pesada no país europeu, o que nos vem a mente são nomes como Moonspell, Tarântula, RAMP ou Bizarra Locomotiva. Mas assim como no Brasil, a cena portuguesa possui uma grande leva de bandas em variadas vertentes, e neste ponto o symphonic metal desponta atualmente com o lançamento do debut album da Glasya – um grupo formado por experientes músicos portugueses com influências distintas, resultando em uma sonoridade com genuína e coesa em ‘Heaven’s Demise’. Em entrevista exclusiva para o Portal Metal Revolution, o tecladista Davon Van Dave aborda sobre as temáticas das canções do debut, as influências pessoais dos integrantes, o lançamento do vídeo clipe da faixa título e lyric da canção que e leva o nome da banda, a cena portuguesa e muito mais.

André Luiz – Primeiramente muito obrigado pela entrevista. Embora nova, a banda possui músicos experientes da cena portuguesa, de diferentes bandas. Como se deu a união deste sexteto de músicos até a line up atual da Glasya? Os músicos seguem carreiras profissionais ou rotinas de estudo em paralelo à banda?
Glasya –
Olá André Luiz, muito obrigado por nos ter convidado e muito nos honra esta entrevista. A Glasya nasce da visão do Hugo Esteves, nosso guitarrista e fundador, para criar um projeto musical que, como caracteriza o Symphonic Metal, unisse o Metal com orquestrações, mas de uma forma mais dramática, mais cinematográfica, onde pudessem ser contadas e interpretadas histórias do nosso imaginário através da nossa criação musical. Ele foi convidando vários músicos seus conhecidos até solidificar a equipe que agora temos, tivemos a sorte de reunir vários músicos experientes que tinham recentemente saído das suas antigas bandas e criamos a Glasya como estamos agora. Neste momento, pela importância que a Glasya é para todos nós, estamos focados nesta banda, apenas a Eduarda tem a banda tributo a Nightwish, a Nightdream, e que nós como companheiros de banda apoiamos.

André Luiz – Em 2018, a banda liberou o vídeo clipe para o primeiro single do debut album, justamente a faixa de abertura que leva o nome do trabalho de estúdio, “Heaven’s Demise”. A escolha foi perfeita para resumir a sonoridade da Glasya – mesclando a maestria do instrumental sinfônico com a voz lírica de Eduarda, traduzidos em melodias cativantes e um solo de guitarra certeiro –, mas além da música não há como deixar de destacar o exuberante local de gravação do vídeo clipe, com direção de Jose Dinis. Como se deram as escolhas tanto da faixa título para lançamento em single quanto da locação para gravação do clipe?
Glasya –
Muito obrigado pelas tuas palavras! De fato todos concordamos que a música “Heaven’s Demise” seria o nosso cartão de visitas perfeito, por razões “emocionais” bem como por conter em si vários componentes que caraterizam a Glasya. As razões emocionais derivam do fato de ser a primeira música composta pela Glasya e ter sido sempre esta música a ter tido a primeira contribuição de todos os músicos que compõem agora a banda. O local do vídeo clipe foi sugerido pela Eduarda e o realizador adorou o spot de imediato. A gravação foi descontraída e acho que o próprio local nos deu uma energia positiva e a mística que se consegue sentir no vídeo clipe. O edifício que se vê parece um pequeno castelo, mas não o é, é um antigo sanatório que nunca chegou a ser concluído, a fachada começou a ruir e o formato das janelas ficou um efeito que faz lembrar a ameias de um castelo. Achamos o local perfeito para a mensagem que existe na própria música, que fala de embuste e ilusão, e o próprio local é uma ilusão, pois parece algo que não é.

André Luiz – ‘Heaven’s Demise’ foi mixado/masterizado por Fernando Matias – de trabalhos com Moonspell, Bizarra Locomotiva, Gwydion entre outros – no The Pentagon Audio Manufacturers Studios. A qualidade do trabalho fica bem evidenciada em faixas como “Ignis Sanctus” – arremetendo a uma explosão sinfônica mesclada com duetos de vocais e um trabalho de destaque também de Bruno Ramos na bateria – e a melodia de “Coronation Of A Beggar” a qual gruda na mente do ouvinte – como exemplo, escutando o álbum para desenvolver a pauta desta entrevista, minha sobrinha de 06 anos após a ouvir cantarolou a melodia da faixa o restante do dia. De que forma se deu a escolha por Fernando Matias, e como representar características de faixas distintas em um álbum coeso como este debut album?
Glasya –
O Manuel Pinto, nosso baixista, já tinha trabalhado com o Matias e sempre nos falou muito bem dele, ele começa a ser um produtor de referência em Portugal e com muito mérito próprio. Ele realmente conseguiu captar a essência da banda e transforma-la em um álbum que muito nos orgulha. O Bruno Ramos é um excelente baterista e creio que toda a nossa equipe tem felizmente músicos muito bons e cheios de vontade de fazermos o melhor trabalho possível juntos.
Sabe André, o que você e a sua querida sobrinha sentem na “Coronation Of A Beggar” é o fato de a música ser muito sincera, nasceu de um sentimento e esse sentimento está refletido em todos nós que a interpretamos, desde a bateria até à voz, todos estamos a sentir o mesmo quando a tocamos e essa sintonia espelha-se para quem a ouve. Ainda bem que conseguimos fazer chegar essa energia para quem a ouve, e não há nada mais genuíno que a reação de uma criança! Uma das coisas que mais me orgulha neste nosso primeiro trabalho é o fato de, além de não parecer ser o álbum de uma banda que está há tão pouco tempo junta, é a diversidade que conseguimos trazer a cada música e no produtor final todas as músicas fluem entre elas e fazem aquilo que sempre quisemos que elas fizessem, contassem uma história… Quando a nossa história e a história da pessoa que nos ouve se fundem, cria-se um sentimento comum.

NOTA DO EDITOR: após o comentário de Davon Van Dave, a mãe da Lorena Cardoso – também conhecida como “minha sobrinha” – de 06 anos de idade, encaminhou um vídeo para banda, ao som de “Coronation Of A Beggar”.

André Luiz – Se a line up da Glasya traz músicos experientes, podemos destacar a participação destes em faixas variadas: “Eternal Winter” e o trabalho de guitarras de Hugo Esteves e Bruno Prates, a balada “Birth Of An Angel” e o tom intimista de “No Exit From Myself” traduzidos na interpretação de Eduarda Soeiro, “Neverland” arremetendo à bandas clássicas de gothic/symphonic metal como Epica ou Nightwish com melodias características do estilo, a instrumental “A Thought Of You”… Estes pontos de destaque variados demonstram a maturidade musical dos músicos desta experiente line up, muito bem resumidos nas 10 faixas do álbum. Como se deu a composição e gravação das faixas – cada músico trazendo idéias, letras e música em separados, reuniram-se em estúdio e buscaram o encaixe de ideias? Comente sobre a diversidade de influências musicais dos integrantes e seu reflexo no ‘Heaven’s Demise’ como um todo.
Glasya –
Todos os músicos têm influências muito diferentes, a Eduarda tem uma formação clássica, o Hugo gosta de bandas mais old school, o Bruno Ramos gosta do lado mais gótico, o Bruno Prates e o Manuel Pinto gostam do progressivo e eu sou um eterno fã de bandas sonoras e composições orquestrais. Todos temos um pouco de nós neste álbum e isso traz essa diversidade. A base deste álbum foi composto mais pelo Hugo e eu, Davon, mas todos os integrantes tem muito de si nas músicas e trouxe mais riqueza às faixas. Nada foi previamente estudado para ser de determinada maneira, as músicas nasceram do que sentíamos no momento e resultou em canções que demonstram essa genuinidade.
O Hugo Esteves e o Bruno Prates fazem uma dupla de guitarristas muito coesa, isso sente-se no álbum, mas ainda mais ao vivo. A guitarra do Hugo tem o groove e o peso necessário e os solos do Prates são expressivos e muito bem executados. A Eduarda é uma cantora exímia e que tem surpreendido muita gente nas nossas atuações ao vivo, pois é uma grande front leader e a sua prestação é igual ou superior do que está no álbum. As músicas não nasceram em simultâneo, portanto cada uma expressa um momento diferente das nossas vidas e têm mensagens e sentimentos distintos. A música e a letra são indissociáveis, a música nasce sempre de um impulso pessoal e depois a letra verbaliza e complementa com palavras.

André Luiz – O instrumental de “The Las Dying Sun” arremete a fase mais melódica do Angel Dust, e o dueto de vozes dá um ambiente épico sensacional à faixa. Mesmo com o trecho mais lento/sinfônico mesclado aos teclados do Davon Van Dave, diria que a música mais forte do álbum. Já outra faixa pesada, a que leva o nome da banda, “Glasya”, contou com participação de Flávio Lino do Deadlyforce – escolhida como segundo single do ‘Heaven’s Demise’, lançada recentemente em lyric video nas mídias sociais da banda – e me lembrou o último trabalho da banda brasileira Dark Avenger, antes do falecimento do saudoso Mario Linhares. Estas mesclas de peso e sinfonia melodiosa de forma natural, sem soar forçado, reforçam ainda mais o ponto citado na questão anterior, sobre a maturidade musical dos músicos da Glasya. Como se deu a escolha da faixa que nomeia a banda como segundo single do debut album? Comente sobre o encaixe entre as influências individuais dos músicos e a execução com naturalidade as quais trazem homogeneidade a cada faixa do ‘Heaven’s Demise’…
Glasya –
Para já expressar o nosso respeito pelas grandes perdas que tiveram, seja o Mario Linhares que referiste bem como o recente falecimento de André Matos que muito nos tocou em Portugal. A música “Glasya” é um perfeito exemplo de como nós como banda nos complementamos uns aos outros, a música inicialmente foi composta noutro pretexto e depois cresceu para a música que hoje existe e isso faz com que a própria canção nos seja especial e a tenhamos escolhido para segundo single, além da excelente prestação vocal do Lino que veio trazer uma dinâmica extraordinária à música. Cada música tem um feeling diferente, todas tiveram várias etapas, nasceram, cresceram e amadureceram. É difícil descrever por música pois todas tiveram genesis diferentes, mas todo o processo de composição e contribuição dos membros da banda foi feito com muita alegria, paixão e respeito pelo talento de todos.

André Luiz – Composto por 10 músicas, ‘Heaven’s Demise’ explora sonoridades distintas, da música celta/asiática a medieval e orquestral, com pitadas de power metal e os duetos de vozes característicos do gothic metal. Além das influências diversificadas, houveram participações especiais de Paulo Gonçalves (Rasgo), Nélson Raposo, da violinista Inna Calori além do já citado Flávio Lino (Deadlyforce). Como se deram estes convites?
Glasya –
Eu estive na mesma banda que o Paulo durante uns anos na Shadowsphere, ficou a amizade e sempre gostei da voz dele, quando falamos em convidar músicos, lembrei-me logo dele. O Lino é também um grande vocalista, já conhecíamos a sua forma de cantar e foi mesmo a escolha perfeita para o tema pois na prestação dele sente-se o vigor de cada palavra e cada expressão, teve uma interpretação quase dramática da música, foi espetacular. O Nélson é amigo da banda e é voz-off profissional e demos-lhe a difícil tarefa de interpretar a voz de um velho rei, quando ele nos apresentou a gravação fiquei estupefato, nem queria acreditar que era ele. A Inna é amiga da Eduarda e é uma violinista extraordinária, o feeling e beleza que ela conseguiu transmitir às músicas é indiscritível, adorei tudo o que ela fez.

André Luiz – Mesmo com pouco tempo de carreira, a Glasya integrou a coletânea Symphonic & Opera Metal – ao lado de artistas como Epica e Kamelot –, assinou com o selo alemão Pride & Joy Music – o qual possui em seu catálogo bandas como Almah, Bonfire, Black Majesty, Secret Rule e Last Days of Eden – para lançamento do ‘Heaven’s Demise’ e a mídia especializada tem sido muito receptiva ao primeiro full lenght da Glasya. Como esta boa receptividade inicial à banda tem impactado em seus planos futuros? Há negociações para lançamento do álbum e shows em outros países/continentes?
Glasya –
O feedback que temos tido tem sido extraordinário, muito mais do que esperávamos. Temos a vontade de crescer e dar o máximo pois se existe tantas pessoas a acreditarem em nós, temos de tentar corresponder às expectativas, devemos isso a quem nos está a apoiar! O convite para a coletânea surgiu inesperadamente, fomos contactados pela editora, também alemã, que sentiu que tínhamos a qualidade suficiente para estar numa coletânea tão importante. Depois, tem sido tudo uma avalanche de acontecimentos que nos dão a levar a ser conhecidos por todos os cantos do globo.

André Luiz – A Glasya é uma banda atuante nas mídias sociais, um dos motivos para realização desta entrevista foi justamente o ótimo retorno em pageviews da nota de divulgação do vídeo clipe de “Heaven’s Demise” em 2018. No meio metal atual, o engaje de bandas nas divulgações e a criatividade na utilização das mídias sociais podem ser um diferencial entre estar em evidência e ser “mais uma banda”?
Glasya –
Existem milhares de bandas no mundo, a maioria com uma qualidade acima da média, não é fácil nos destacarmos em um meio tão diversificado de oferta musical. Acho que para uma banda conseguir chegar a um maior número de pessoas, além da sua qualidade, tem de ser pró-ativa, divulgar, ter um relacionamento direto com os fãs e quem acredita na banda. Essa proximidade é muito importante e nós valorizamos muito esse lado humano que faz de nós, amantes de música, uma comunidade tão unida e forte.

André Luiz – Quando se fala em heavy metal de Portugal, nomes como Tarântula, RAMP ou Bizarra Locomotiva podem ser citados por quem busca mais informações a respeito da cena local, mas há anos o nome de maior evidência internacional trata-se do Moonspell. Como estão as questões de público, produtores, casas de show, mídias, bandas, enfim, tudo o que cerca este meio em Portugal? Vocês enxergam um crescimento, estagnação ou diminuição atualmente na cena local?
Glasya –
Portugal tem muito para oferecer, temos bandas excelentes que cada vez mais são alvo da curiosidade da imprensa, das editoras e dos fãs de metal no geral. O nosso estandarte é sem dúvida o Moonspell, e como bem citaste, temos o Ramp, Tarântula ou Bizarra Locomoiva mas também uma nova geração de bandas que estão a dar que falar, o Gaerea no Black Metal, o Okkultist no Melodic Death Metal e, por exemplo nós, no Symphonic Metal. A cena metal está a crescer e cada vez mais temos as grandes bandas a trazer as suas tours à Portugal, cada vez mais bons festivais e locais de espetáculo com excelentes condições.

André Luiz – No Brasil atualmente há um cenário de bandas cover sobrepujando as de material autoral, acarretando em certas divergências, especialmente após o país se tornar roteiro constante de shows internacionais. Recentemente o falecimento do vocalista Andre Matos (Angra, Shaman, Viper) trouxe questionamentos sobre repensar alguns conceitos e posturas, muito se comenta até mesmo – entre público e mídia, nada envolvendo os músicos – a respeito de um retorno da formação clássica do Sepultura, visto que como não houve tempo para o mesmo ocorrer no Angra, estamos presenciando um momento de comoção na cena. Até pelo fato da Eduarda Soeiro integrar o tributo oficial portugês ao Nightwish, como vocês observam estas questões envolvendo bandas cover e autorais? Divergências entre músicos e separação de bandas, a que ponto o desgaste em turnês e brigas internas podem afetar o legado e carreira de grupos musicais?
Glasya –
Essa divergência também ocorreu em Portugal durante até pouco tempo, mas também compreendemos que são as bandas de covers que muitas das vezes conseguem fazer que os bares e os palcos, onde normalmente as bandas autorais também tocam, possam sobreviver e subsistir. Nem sempre as bandas de material próprio garantem casa cheia, infelizmente, fazendo que os bares precisem de covers para trazerem mais pessoas para ver os concertos e consumir. Já existem bandas que começam a trazer muita gente aos seus shows, mas nem todas conseguem, e para essas terem um palco bom para tocar, quem é dono desse espaço precisa de dinheiro para poder manter o local a funcionar. Por isso, nós bandas autorais acabamos por aceitar bem a necessidade de haver bandas de covers para que os palcos possam continuar a existir.

André Luiz – Agradeço a entrevista, deixe seu recado para os leitores do Portal Metal Revolution e fãs da banda.
Glasya –
Mais uma vez agradecemos o convite e queremos dizer que, sejam fãs ou não de Symphonic Metal, se gostam de música genuína feita com coração, venham espreitar o nosso Youtube e Facebook e se gostarem, ficamos muito contentes que nos contatem e sigam, e quem sabe um dia estaremos aí no Brasil para dizer um olá a todos vocês! Obrigado!

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