Metallica, Greta Van Fleet e Ego Kill Tallent – 10-05-2022 – São Paulo (Estádio do Morumbi)

Texto por André Luiz – Fotos por Lucca Miranda (divulgação Ego Kill Talent), divulgação Greta Van Fleet, Brett Murray e Jeff Yeager (divulgação Metallica) – Edição por André Luiz

Anos, palavra curta, a qual se multiplicada faz uma grande diferença, especialmente em se tratando do grau de importância que esta apresentação do Metallica em São Paulo alcançou dadas as circunstâncias: dois anos de pandemia, dois anos de adiamentos das apresentações da WorldWired Tour pela América do Sul, cinco anos desde a última performance da banda no Brasil (como headliner do Lollapalooza 2017), seis anos desde o lançamento do mais recente disco de estúdio dos norte-americanos –  ‘Hardwired…to Self-Destruct’ de 2016… Na décima vinda do Metallica ao Brasil em meio às suas mais de quatro décadas de carreira – ou 41 anos para ser mais exato –, nunca a multiplicação de 365 dias fez tanta diferença.

Após impactantes performances por Chile, Argentina e, no Brasil, em Porto Alegre e Curitiba, os norte-americanos aportaram na capital paulista ao lado dos compatriotas do Greta Van Fleet como convidados especiais da tour – nos shows em nosso país, a Ego Kill Talent foi escalada para abertura. E desde a manhã desta terça-feira, 10, os telejornais exibiam imagens do ávido público em filas nos arredores do Morumbi, aguardando a abertura dos portões agendada para às 17h. Em meio a um dia de semana, o que notou-se foi o não fechamento da Avenida João Jorge Saad, como ocorre em demais eventos no estádio – mesmo com faixas da CET indicando a obstrução de acesso à mesma a partir das 12h.

Exatamente às 18h27m, com dezenas de milhares de pessoas nas dependências do Morumbi, a banda Ego Kill Talent iniciou sua apresentação com “Now!”, seguida por “Sublimated”. “Estamos felizes de estarmos (sic) aqui hoje para aquecer vocês para a maior banda de rock do mundo”, discursou o vocalista Jonathan enquanto os demais integrantes “trocavam” seus instrumentos, e na nova configuração, executaram “We All” e “The Call”.

Excursionando pela “Better Late Than Never 2022 Tour”, o Ego Kill Talent trouxe na formação Jonathan Dörr (vocal), Theo van der Loo (guitarra, baixo), Jean Dolabella (bateria, guitarra), Raphael Miranda (baixo, bateria) e Niper Boaventura (guitarra, baixo), os quais atualmente divulgam o disco de estúdio ‘The Dance Between Extremes’ de 2021. Uma das características do grupo trata-se dos integrantes mudando de instrumento no decorrer do show, algo que ocorreu novamente antes de Dörr confessar a ansiedade por aquela tour (“dois anos que estamos esperando esta noite”, afirmou) e executarem “Heroes, Kings And Gods”.

A parte derradeira do show ocorreu com “Lifeporn” e, após anunciarem a última música e pedirem para o público fazer barulho, o encerramento com “Last Ride” às 18h58m. A “Better Late Than Never 2022 Tour” possui datas agendadas em festivais dos mais renomados pela Europa – a citar Hellfest, Graspop, Rock Am Ring e a versão portuguesa do Rock In Rio –, mas claramente a oportunidade de se apresentar em shows ao lado do Metallica e Greta Van Fleet para tamanho público em seu país natal, terão importância destacada na biografia da Ego Kill Talent. O resultado? Veremos nos próximos anúncios de apresentações no Brasil, mas a citar o retorno do público presente no Morumbi, o holofote alcançado pelo talentoso quinteto multi-instrumentista foi muito bom.

Set List Ego Kill Tallent:
Now!
Sublimated
We All
The Call
Heroes, Kings And Gods
Lifeporn
Last Ride

O estádio do Morumbi estava praticamente lotado quando exatamente no horário programado, às 19h30m, os quatro integrantes do Greta Van Fleet surgiram no palco, com um “boa noite Sao Paulo” em português de Josh, a capa do mais recente álbum ‘The Battle At Garden’s Gate’ ao fundo – no telão central – e os agudos tradicionais do vocal dando início em “Built By Nations” do citado disco de 2021, emendando com “Black Smoke Rising”, faixa título do EP de 2017 – relançado no mesmo ano em formato de EP-duplo sobre a alcunha de ‘From The Fires’, adicionando-se quatro canções – dos mais conhecidos hits do quarteto norte-americano, com agudos dando o tom (incitando gritos de parte do público) e o virtuosismo do guitar Jake chamando a atenção.

Divulgando o disco mais recente, ‘The Battle At Garden’s Gate’ de 2021, os irmãos Josh Kiszka (vocal), Jake Kiszka (guitarra) – estes dois primeiros gêmeos –, Sam Kiszka (baixo) e o amigo de infância Danny Wagner (bateria) excursionam mundo a fora com a “Dreams In Gold Tour 2022”. E seguindo sem pausas para interações diretas com o público focando em uma execução carregada de feeling e virtuosismo, “Caravel” do citado álbum de 2021 foi iniciada com sua intro na bateria, o baixista Sam nos teclados durante solo de guitarra e a banda arrancando aplausos ao final. Em “Lover, Leaver (Taker, Believer)” – ‘Anthem Of The Peaceful Army’ de 2018 – continuam sequência de canções sem pausas, com o vocal fazendo praticamente momentos solos na voz simplesmente sensacionais, Josh incitando o público à levantarem as mãos durante o solo de Jake e fazendo um duelo de voz e guitarra em determinado momento com seu irmão gêmeo.

Assim como na apresentação da Ego Kill Talent, o Greta pôde utilizar apenas 3 dos cinco telões montados no palco: o central com a ilustração da capa do mais recente álbum da banda e os dois laterais exibindo imagens ao vivo dos integrantes. Seria tentativa de diminuir o impacto da anunciada “convidada especial” da turnê para não ofuscar a atração principal? Teorias a parte, o quarteto prosseguiu com uma das suas canções de maior destaque, “My Way, Soon”, arrancando muitos aplausos dos presentes e, ao fim, um singelo “thank you” do frontman. “The Weight Of Dreams” contou com uma interpretação de arrancar o fôlego, agudo estridente de Josh o qual durante solo de guitarra portando um pandeiro em mãos correu de um lado ao outro no palco incitando o público. No momento instrumental estendido, o baixista Sam tornou a dedicar alguns minutos ao teclado e ocorreram revezados solos de guitarra e bateria, até Josh jogar o pandeiro ao público e retornar para encerrar a exibição carregada de emoção.

A canção derradeira da apresentação, “Highway Tune”, contou com palmas interagindo no ritmo do vocal durante o refrão, guitarra de Jake atrás da cabeça durante o solo, pausa com mãos no ar e gritos a pedido do vocal para retomada da canção e o encerramento às 20h24m – os músicos simplesmente acenaram “tchau” com as mãos e deixaram o palco. Breve, avassaladora, virtuosa, algumas das palavras as quais podem ser usadas para descrever a passagem do Greta Van Fleet pelo palco montado no estádio do Morumbi. “Ah, mas tiveram poucas interações com o público”, ok, mas era necessária com a entrega demonstrada durante cada canção? O certo é que na mesma proporção que houveram headbangers de mentalidade chiita torcendo o nariz para a performance do quarteto – a citar que mesmo estes reconheceram o talento dos músicos –, também foram muitos os que não apenas apreciaram a apresentação como passarão a acompanhar mais a banda a partir daquela noite de terça-feira em São Paulo (nota do autor: 90% dos veículos de “imprensa” reportaram set list errado devido ctrl c + ctrl v de fontes como setlist.fm ou dos “amigos” que postaram seus reviews horas depois do show. Nestes momentos diferimos quem “copia e cola” do REPÓRTER que anota os acontecimentos do evento em tempo real para reportar ao público).

Set List Greta Van Fleet:
Built By Nations
Black Smoke Rising
Caravel
Lover, Leaver (Taker, Believer)
My Way, Soon
The Weight Of Dreams
Highway Tune

A aglomeração na parte central em direção ao palco aumentava a medida que o horário programado para início da apresentação da atração principal da noite se aproximava. A última vinda ao Brasil do Metallica foi para o Lollapalooza 2017, já pela “WorldWired Tour”– naquele show foram 18 canções sendo 05 do novo álbum e particularidades como públicos de bandas distintas pertencentes ao line up do festival, um sistema de som com problemas, enfim… Às 21h13m os PA’s executaram em sequência “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)” do AC/DC e “The Ecstasy Of Gold” de Ennio Morricone, os telões – agora sim, os cinco eram utilizados, diferente das apresentações iniciais – exibiam um vídeo de faroeste antigo, até que uma intro conhecida foi executada e com um grito de “Sao Pauloooo” do frontman os músicos surgiram no palco executando o petardo “Whiplash” (do ‘Kill ‘Em All’ de 1983), já emendada na faixa título do disco de 1984, “Ride The Lightning” – telões centrais com imagens da banda no palco no melhor “ride the lightning style”, enquanto os laterais exibiam o clipe da canção, e James incitando a participação do público no meio da música aos gritos de “hey hey hey”.

“Se tiver alguma criança ae no meio, leve para o lado do palco” ironizou James, iniciando o petardo Fuel (‘ReLoad’ de 1997) com labaredas de fogo ditando o ritmo da canção tanto no palco quando nas torres ao centro do campo – nos demais shows da turnê latina “Harvester Of Sorrow” e “The Memory Remains” foram executadas nesta parte do set. “Foi um longo tempo esperando para ver a família Metallica em São Paulo, estamos de volta e vamos tocar uma do ‘Kill ‘Em All’, estão prontos?”, questionou o frontman antes de executarem o clássico do disco de 1983 “Seek & Destroy”. Durante a canção, os telões mesclavam imagens dos músicos com as de ingressos antigos de shows da banda no Brasil, enquanto o público bradava alto o refrão, Lars levantava de sua bateria incitando os presentes e Rob girava no palco com seu baixo. Emendada na canção anterior, “Holier Than Thou” (‘Metallica’ de 1991) seguiu com o telão mesclando imagens de cruzes em animação e a banda ao vivo no palco, enquanto o público acompanhava na base do “hey hey hey” durante o solo de baixo (“No Remorse”, “Moth Into Flame” e “Through The Never” foram executadas nesta parte do set nos demais shows da tour sul-americana).

Luzes apagadas, a clássica intro de “One” (do ‘…And Justice for All’ de 1988) nos PA’s enquanto labaredas de fogo eram expelidas conforme o som de bombas eram ouvidos e fogos no céu simulavam rajadas de tiros. Enquanto a canção era executada com participação ativa dos presentes, lasers vermelhos no palco surgiram durante o solo inicial com imagens de soldados no telão. Posteriormente, eram projetados lasers azul, vermelho e verde no solo com os três músicos de cordas performando a frente da bateria. Ao fim, James questionou se o público curtiu a música enquanto trocava sua guitarra, e ironizou comentando que a seguinte ninguém gostaria. “Não existe outro lugar onde eu gostaria de estar nesse momento, a não ser com a família Metallica de São Paulo”, completou Hetfield e cantou a capela o refrão de “Sad But True” (‘Metallica’ de 1991) acompanhado do público, iniciando o clássico junto aos seus parceiros de banda – detalhe para os telões ao fundo exibindo imagens de martelo vermelho e azul.

Os músicos deixaram rapidamente o palco e James retornou perguntando “St. Anger?”. Com público gritando, executaram uma novidade nesta tour, “Dirty Window” do citado disco de 2003 enquanto o público acompanhava nas palmas durante o refrão – “Moth Into Flame” e “Whiskey In The Jar” entraram no set em shows anteriores nesta parte. Nova intro nos PA’s, imagens no telão como se fossem luzes em janelas de prédios e “No Leaf Clover” (‘S&M’ de 1999) sendo executada – surpresa, visto que “The Unforgiven” estava prevista no set para o dado momento. Ao fim, James agradeceu e os músicos deixaram o palco até a execução de nova intro nos PA’s, e o retorno do quarteto com imagens de sinos nos telões, executando o clássico do ‘Ride The Lightning’ de 1984, “For Whom The Bell Tolls”. Rob e Kirk brincavam no palco, enquanto James retornou trajando nova camisa preta de gorro e iniciou a parte cantada do petardo: destaque para o blackout no “break” da música, show de luzes, Lars se levantando da bateria e encarando o público enquanto batia nos pratos de sua bateria. Ao fim, após solo estendido de Kirk, emendaram na faixa seguinte: “Creeping Death” do mesmo disco de 1984, com palco predominantemente avermelhado, novo espetáculo de luzes, e James pedindo ao público para cantar o refrão – prontamente atendido pelo pulsante Morumbi.

A “WorldWired Tour 2022” colocou novamente na estrada James Hetfield (vocal, guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) após o período pandêmico. Divulgando o disco mais recente ‘Hardwired…to Self-Destruct’ de 2016, mas claramente adicionando mais canções antigas e variando o set show a show, os músicos aproveitaram para proporcionar experiências distintas aos públicos de cada localidade a qual visitaram. De fato, com idade beirando os 60 anos (Kirk 59, James e Lars 58, Rob 57), esta variação é resultado não apenas de muito ensaio como do tempo juntos na estrada – se “ontem” chamávamos Trujillo de “o novo baixista”, o músico já está em vias de completar 20 anos de Metallica. Nesta tônica, após nova intro nos PA’s com imagens nos telões simulando pessoas dentro de um espelho, executaram “Welcome Home (Sanitarium)” do ‘Master Of Puppets’ de 1986 – a deixa para um dos pontos altos da noite o qual viria a seguir…

Os primeiros trechos da faixa título do disco clássico de 1986 levaram o estádio do Morumbi ao ensandecimento: durante os acordes iniciais de “Master Of Puppets”, Lars simplesmente deu show para câmera comemorando como se fosse um dos fãs presentes na pista ou arquibancada, James pediu para o público cantar (prontamente atendido) e o caos estava instaurado com vários moshs enquanto aparelhos celulares da “turma das lives” eram arremessados ao chão. Durante o solo de Kirk, o público entoou o tradicional “oh oh oh” e o telão exibiu a capa do referido disco em formato animado – como se andássemos entre as cruzes do cemitério. “Sao Paulo” bradou James com pedestal do microfone no alto para os presentes cantarem. “Se vocês estiverem tendo uma ótima noite gritem hey hey”, instigou o frontman encerrando a canção com sua gargalhada tradicional e músicos à frente do palco fazendo sinal de agradecimento em meio aos gritos de “ole ole metallica”.

Os músicos deixaram o palco e os telões exibiram o logo da banda – complementando ao “M” e “A” que adornavam os lados do imenso palco. Para o encore, enquanto muitos aguardavam “Blackened” ou “Battery”, foi a faixa do disco mais recente de 2016, “Spit Out The Bone” a encarregada de marcar o retorno dos músicos ao palco com a bandeira do Brasil aparecendo em flashes no telão ao ritmo da bateria de Lars e labaredas de fogo no mesmo “time”. Se novamente a bandeira de nosso país ao fundo marcou a execução da canção, a frase “It comes to life” na guitarra de Kirk foi exibida com destaque nos telões em meio as labaredas ao final do petardo.

O duo final da apresentação traria dois dos principais hits do quarteto norte-americano, presentes naquele que ficou conhecido como o black album de 1991. Os aparelhos celulares iluminaram o estádio no momento em que Kirk colocou-se à frente do palco executando a intro de “Nothing Else Matters”, e em meio a lasers vermelhos projetados, o Morumbi cantou em uníssono o clássico ao lado de Hetfield. Emendando momentos, “Enter Sandman” veio à tona com a projeção de fogos de artifício e muitos celulares no alto até o encerramento na base de grande queima de fogos. Muito agradecidos, os músicos percorreram o extenso palco jogando palhetas e baquetas ao público, e se revezando no microfone com declarações aos presentes: James disse que a banda amava todos nós em meio aos gritos de “ole ole Metallica”, Kirk repetiu vários “obrigados” em português, Trujillo entoou também em português a canção “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” e, por fim, Lars disse que era incrível retornar à São Paulo desde a última apresentação no Lolla, afirmando que o Metallica ama a cidade. Os músicos se abraçaram ao centro palco e após novo “ole ole”, recolheram-se ao backstage exatamente às 23h18m.

Set lists variados, telões gigantescos, labaredas de fogos e pirotecnia, mas mais do que isso, um sentimento diferente do Metallica muitas vezes burocrático e com problemas técnicos que vimos seja no Rock In Rio ou no último Lollapalooza. Os integrantes nesta vinda ao país demonstraram um lado mais afetuoso, simplista, até certo ponto sentimental durante os shows no país – da ligação de James aos pais de um bebê nascido na apresentação de Curitiba, culminando no episódio de Belo Horizonte dois dias depois em que James confessou o esgotamento mental, sendo abraçado pelos demais músicos em meio à lágrimas. Se desta vez a o som mais limpo foi priorizado em detrimento das caixas estridentes pulsando o peito do ouvinte – até pela acústica do Morumbi em comparação por exemplo, com um Allianz Parque –, este lado mais humano contrastou por exemplo com o episódio de quase duas décadas atrás quando a banda cancelou tour no país devido cansaço, despertando decepção de muitos. Para o autor desta matéria, o qual vivenciou in loco o episódio de 2003, interagindo com a assessoria da produtora local e por vários fóruns de fãs, participar desta apresentação e vivenciar momentos na tour de 2022 trata-se de uma revisão nos meus conceitos sobre este que pode ser considerado, ao lado do Iron Maiden e Black Sabbath, os maiores gigantes da história do heavy metal mundial (agradecimentos à Live Nation e Motisuki PR).

Set List Metallica:
Whiplash
Ride The Lightning
Fuel
Seek & Destroy
Houlier Than You
One
Sad But True
Dirty Window
No Leaf Clover
For Whom The Bell Tolls
Creeping Death
Welcome Home (Sanitarium)
Master Of Puppets

Spit Out The Bone
Nothing Else Matters
Enter Sandman

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