Ian Anderson – 10-10-2017 – São Paulo (Teatro Bradesco)

Texto por Clayton Franco – Fotos por Fernando Yokota (www.facebook.com/fernandoyokotafotografia/) – Edição por André Luiz

Para os fãs de rock progressivo, com uma grande pitada psicodélica, o nome Ian Anderson é figurinha conhecida. Estando 50 anos à frente do grupo Jethro Tull – que segundo o mesmo, acabou em 2011 –, o veterano cantor, flautista, guitarrista, violonista, saxofonista, trompetista e tantos outros “istas” deixou seu nome gravado a ferro e fogo na história do rock progressivo. Junto com o Jethro Tull concebeu obras incríveis como ‘Aqualung’, ‘Too Old To Rock ‘n’ Roll’ e talvez a mais conhecida ‘Thick As A Brick’. Por falar neste clássico, exatamente dois anos se passaram desde a última vez que Ian passou pela terra da garoa. Ainda trago vivo na memória o show realizado em outubro de 2015, quando Anderson e sua trupe tocaram na íntegra o disco ‘Thick As A Brick’. E dois anos foram o suficiente para deixar saudades de uma das grandes vozes do progressivo dos anos 70 e 80. Com uma proposta diferente de sua última turnê em terras tupiniquins, ao invés de executarem algum disco clássico na integra, Ian retornou com sua banda solo disposto a fazer uma nova versão do Jethro Tull; ou seja, tocando os grandes clássicos que compôs com o grupo. Nem preciso dizer que o Teatro Bradesco lotou com fãs de todas as idades e gerações – incluindo famílias completas com avô, filho e neto – para ver a história de um dos últimos medalhões psicodélicos na ativa ser passado a limpo em quase duas horas de espetáculo.

Com uma pontualidade quase britânica, exatamente às 21h10m, a banda subiu ao palco dando início ao show com “Living In The Past”. Ian adentrou no momento em que a flauta começou e levou ao delírio um teatro transbordando de pessoas. O público acompanhava Anderson de um lado a outro do palco, o qual agitava a todos com sua flauta transversal. Logo ao final da canção, Ian assumiu pela primeira vez a pose clássica do duende escocês – Leprechaun – apoiado em uma única perna, tocando a flauta. No dado momento, todos gritavam e aplaudiam o mestre, que embora já tenha passado dos 70 anos de idade ainda demonstrava muita disposição em cima do palco. Aliás, disposição e vigor era o que não lhe faltava, pois sem deixar seus fãs respirarem já emendou com “ Nothing Is Easy”, outra canção dos primórdios do Tull muito vem recebida pelo público.

 

Em uma pequena pausa durante a qual agradeceu a recepção calorosa do público, Ian comentou que as duas primeiras músicas executadas eram do longínquo ano de 1969, mas que a seguinte seria algo muito recente, praticamente uma canção nova escrita em 1978. O público riu da piadinha e o clássico “Heavy Horses” foi executado. O mais interessante nesta canção foi que a mesma foi executada junto com o atual clipe dela no qual uma atriz e cantora acompanha Ian nos vocais, sendo que esta parte foi executada em playback. Com “Thick As A Brick” os fãs foram ao delírio, pois em muitas partes da canção os gritos e assovios vindos do público competiam com o som vindo do palco. Ao findar deste clássico absoluto, todo o teatro aplaudiu de pé durante vários minutos, deixando Anderson completamente desconcertado com tamanho reconhecimento.

A banda que acompanhava Anderson se mostrou a altura do clássico line up do Jethro, sendo que o baixista David Goodier e o tecladista John O’Hara estavam nas fileiras do Tull em sua última encarnação de 2011. Completando a trupe tivemos Scott Hammond na bateria e Florian Opahle na guitarra trazendo um ar de jovialidade ao grupo. Tal jovialidade se notava presente no peso inserido em “Banker Bets, Banker Wins”, sendo esta a primeira canção dos discos solos de Ian Anderson a ser executada na noite. E se este era o momento para se afastar um pouco dos clássicos do Tull, também foi a hora certa para a execução de “Bouree In E Minor”, um dos clássicos da música erudita composta por Johann Sebastian Bach e que foi muito bem recebida pelos presentes.  Com “Farm On The Freeway” retornamos ao som do Tull, sendo emendada com o clássico “Too Old To Rock ‘n’ Roll, Too Young To Die” a qual levou todos os presentes a cantar em uníssono seu famoso refrão. E para encerrar a primeira parte do show tivemos “Songs From The Wood” e ao seu findar, Ian pediu quinze minutinhos aos presentes para recuperar um pouco as energias.

 

Bem… os quinze minutinhos passaram e ao completar vinte minutos o grupo retornou ao palco com “Sweet Dream” emendando com “Pastime With Good Company”. Para quem não conhece, esta é uma canção do folclore inglês escrita pelo rei Henrique VIII nos primeiros anos do século XVI, pouco depois de ser coroado. É considerada a mais famosa de suas composições e tornou-se uma canção popular na Inglaterra e em outros países europeus durante o Renascimento. Pensa-se ter sido escrita para Catarina de Aragão. Novamente, visto a inclusão de uma canção folclórica inglesa no meio dos clássicos do Tull, Ian achou por bem também tocar “Fruits Of Frankenfield”, a segunda e última canção de sua carreira solo a ser executada na noite. Com “Dharma For One” retornamos aos clássicos iniciais do Jethro.

É inegável que o tempo chegou para Ian Anderson, visto que se trata de um senhor de 70 anos, seu alcance vocal não é o mesmo do auge do grupo. Algumas desafinadas ocorreram ao longo do show e notamos que as vezes falta pulmão para puxar o fôlego em alguns momentos importantes da flauta. Nada disso desabonou sua performance, pois o grande carisma em cima do palco correndo para todos os lados e agitando o público compensou os anos em suas costas. Posso garantir que o senhor Ian envelheceu bem e sua voz, mesmo com a marca do tempo, ainda faz os fãs vibrarem como fizeram em “A New Day Yesterday”, outro grande petardo dos primórdios do Tull.

O show já se aproximava do final, e ainda teve espaço para mais uma homenagem a Sebastian Bach com “Toccata And Fugue In D Minor” com suas partes de piano muito bem trazidas para as linhas de guitarra. Com “My God” o público já se preparava para o final, no qual o clássico “Aqualung” foi o responsável pelo encerramento da segunda parte do show com o público vibrando em uníssono com Ian e seu grupo deixando o palco sob uma longa salva de palmas de seus fãs. Mas engana-se quem pensava que o show havia acabado. Ian retornou em poucos minutos sacando uma última carta da manga. A canção escolhida para encerrar a noite foi “Locomotive Breath”, petardo das antigas muito bem recebido pelos fãs.

Fim do show e nos resta algumas considerações finais… Mesmo com uma certa limitação vocal vinda da idade avançada, o senhor Ian Anderson segue muito bem dando a sua versão aos clássicos do Jethro Tull com a banda solo que lhe acompanha. Lógico que gostaríamos de ver o line-up clássico, mas os membros que acompanham Ian honraram o legado deixado pelo Tull. E convenhamos, Ian sempre foi a marca da banda com seus vocais e flauta. E ao vermos o mestre, apoiado em uma única perna tocando flauta transversal em sua pose clássica, percebemos que retornamos no tempo e estávamos presenciando uma das figuras mais importantes e emblemáticas do rock progressivo. Agradecimentos à AkeMusic e Taga Comunicação.

Set List Ian Anderson:
Living in the Past
Nothing Is Easy
Heavy Horses
Thick As A Brick
Banker Bets, Banker Wins
Bourrée in E minor (cover de Johann Sebastian Bach)
Farm on the Freeway
Too Old to Rock ‘n’ Roll, Too Young To Die
Songs From The Wood

Sweet Dream
Pastime With Good Company (cover do Rei Henrique VIII da Inglaterra)
Fruits of Frankenfield
Dharma For One
A New Day Yesterday
Toccata and Fugue in D Minor (cover de Johann Sebastian Bach)
My God
Aqualung

Locomotive Breath

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