Lollapalooza Brasil 2017: a mistura de tribos que atraiu 100 mil pessoas em um dia


Texto por André Luiz – o conteúdo expresso reflete a opinião do autor, é de inteira responsabilidade deste
Imagens por divulgação Lollapalooza Brasil 2017 – créditos MRossi e I Hate Flash

Festival indie? Música eletrônica? Heavy Metal? Esta edição do Lolla contou com som para todos os gostos, literalmente falando. Se no segundo dia tivemos The Strokes, The Weeknd, Duran Duran e MØ, a primeira data foi do hard rock do Doctor Pheabes ao heavy metal do headliner Metallica, passando pela psicodelia de The xx e The 1975, a mistura de ritmos do Baianasystem, o punk com ska do Rancid, o pop agressivamente enérgico de Tove Lo… Abordaremos mais especificamente o sábado 25 pela maior presença de bandas mais “pesadas” no line up, sem desmerecer o domingo 26 que também alcançou uma marca expressiva acima de 90 mil pessoas segundo informações oficiais – pessoalmente, The Strokes, The Weeknd, MØ e principalmente Duran Duran valiam o ingresso com méritos. Desta forma, podemos citar a primeira vez em que um peso pesado do metal foi headliner do evento, e surpresa: 100 mil pessoas presentes, recorde em um único dia na história do Lolla no Brasil. Coincidência? A citar que o Iron Maiden sozinho levou mais de 80 mil pessoas ao mesmo local uma década antes, diria que não…

O início musical do Lollapalooza com Doctor Pheabes e Outs nos palcos principais, marcou mesmo foi pelo debut do grande público no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Rapidamente o grande contingente de pessoas foi adentrando à gigantesca estrutura montada no local, fato constatado pela maior presença de público nas pistas durante a segunda leva de apresentações do dia com Suricato, Glass Animals e Baianasystem, uma mistura de ritmos executados simultaneamente a qual ainda contou com a pista Perry dedicada à música eletrônica. Primeiro ponto a se destacar, conforme comentários do público presente: dificuldades para se adquirir ingresso na entrada do Autódromo, chegando a relatos de uma hora na fila. De certo, a campanha para que fossem adquiridos os tickets para se ingressar no local foi extensiva, porém não se pode mudar a cultura brasileira e muito menos desperdiçar a oportunidade de lucrar sobre indecisos que resolvem ir ao Lollapalooza de última hora, desta forma, a estrutura para recebimento deste contingente demonstrou-se despreparada ou não acreditava no volume de pessoas com intuito de adquirir ingressos nas primeiras horas de festival.

O Cage The Elephant adentrou ao palco é começou um tanto quanto morno, mas a medida que o show transcorria, a empolgação dos irmãos Matt e Brad Shultz contagiava o público, o qual durante “Come A Little Closer” – do álbum ‘Melophobia’ de 2013 – deu um espetáculo a parte. “Cigarette Daydreams” – também do disco de 2013 – emocionou os presentes, já durante “Shake Me Down”, Matt tirou a camisa e correu de um lado para o outro no palco. “Teeth” encerrou a performance dos norte americanos com empolgação efervescente, tanto que ao final, no corredor localizado em meio ao público, Matt abraçou fãs e subiu na estrutura metálica junto a mesa de som no meio da pista, para delírio dos presentes. Cabe um comentário, o segundo a salientar em meio a grandiosidade do festival: as filas demasiadas para alimentação e água. Podem haver pessoas que teimem em dizer que não teve fãs que passaram 1h-1h30m-2h em filas, mas visualizando posteriormente vídeos disponibilizados na internet ou mesmo alguns vazados na TV – pelo Multishow principalmente –, era possível visualizar aglomerações enormes junto aos caixas e pontos de alimentação. Tal situação também deveu-se a menor quantidade de ambulantes, o qual melhorou no segundo dia de evento.

Quando o The 1975 despontou no palco Onix com “Love Me” do álbum de 2016 ‘I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It’, um grande público aguardava o quarteto de Manchester. Com uma sólida base de fãs no país, Matty Healy (vocal, guitarra), Adam Hann (guitarra), George Daniel (bateria) e Ross MacDonald (baixo) foram acompanhados pelo público presente durante faixas como “Ugh!”, “Heart Out”, “A Change Of Heart”, com destaque especial para “Loving Someone” e “She’s American”. Antes de “Somebody Else”, Healy sentou-se em uma caixa de som, elogiou a jaqueta de um fã e logo em seguida regeu como um maestro o público que cantou em alto e bom som a faixa do álbum de 2016. Já em “Girls”, primeira faixa do debut auto-intitulado de 2013 executada no show, Matty pediu e foi prontamente atendido pelo coral de vozes que acompanhou o frontman em uníssono. “Sex” trouxe o peso da guitarra para o show, que prosseguiu com “If I Believe You”, “Chocolate” e o encerramento com “The Sound” – detalhe para o público pulando a pedido de Healy – e a saída da banda do palco sinalizada por um simples “good night” do frontman. Neste trecho cabe salientar o terceiro ponto desta matéria opinativa, algo que tem ocorrido desde os anos anteriores de Lollapalooza e é motivo de frequente reclamação: a distância absurda entre palcos. Se compararmos em especial o palco Axe e o Onix, são alguns quilômetros a serem percorridos em meio a multidão, o que impede o público de acompanhar shows de sua preferência e também impossibilita o trabalho efetivo de imprensa – dificilmente é aprovado um repórter e fotógrafo credenciados no evento, imagine duas duplas então… Salvo exceções como a grande emissora que patrocina o evento – por motivos óbvios.

O momento lendário do festival deu-se quando os californianos do Rancid subiram ao palco principal, em seu debut no Brasil. Tim Armstrong (vocal, guitarra), Lars Frederiksen (guitarra), Matt Freeman (baixo) e Branden Steineckert (bateria) aportaram pela primeira no país, com uma performance explosiva, iniciada pelos petardos “Radio” e “Journey To The End Of East Bay”. O punk rock dos californianos empolgou os presentes que formaram várias rodas na pista do Lolla enquanto o Rancid despejava clássicos: “Maxwell Murder”, “The 11th Hour”, “East Bay Night”, “Last One To Die” – com agradecimentos de Lars ao público e dedicatória ao Metallica –, a empolgante “Dead Bodies”, “Salvation”, “Bloodclot”. O ska bem trabalhado de “Old Friend” deu um tom diferente à apresentação, a qual retomou ao punk rápido com a exuberante faixa título do álbum de 1993 “The Bottle”, “St. Mary”, “Tenderloin” e “Olympia Wa”. Nova  faixa título sendo executada, desta vez a do álbum de 2014 “Honor Is All We Know”, seguida pela rápida “It’s Quite Allright”, a clássica “Fall Back Down” com sua intro inconfundível no teclado, e o encerramento com o mega hit “Time Bomb” e “Ruby Soho” dedicada por Lars à Lemmy Kilmister do Motorhead – durante a qual Tim Armstrong desceu no meio do público para cantar. Final apoteótico para o momento lendário da noite.

O trio inglês The xx, formado por Romy Madley Croft (vocal, guitarra), Oliver Sim (vocal, baixo) e Jamie Smith (beats), trouxe sua psicoledia ao palco do Lollapalooza Brasil 2017. Divulgando o mais recente álbum de estúdio, ‘I See You’, os ingleses iniciaram sua performance com a faixa “Say Something Loving” do referido álbum, seguindo a apresentação com “Crystalised” e “Islands” – com Romy empolgada no palco. “Lips” foi acompanhada em uníssono pelo público que lotava a pista principal para acompanhar o trio, os mesmos que gritaram alto nos primeiros acordes de “Sunset” e ovacionaram Romy antes da frontwoman anunciar “Performance” – com direito a beijo de Oliver Sim ao final. O show prosseguiu com repertório mesclando faixas do três álbuns de estúdio da banda: “Infinity”, “VCR”, “I Dare You”, “Dangerous”, “Fiction”, “Shelter” e “Loud Places”. O encerramento ficou por conta do single do último álbum “On Hold”, a famosa “Intro” – conhecida trilha do filme 50 Tons de Cinza – e “Angels”, culminando em lindo momento de interação entre banda e público.

The xx ainda se apresentava quando Tove Lo surgiu no palco Axe para uma das performances mais aguardadas da noite. Divulgando o álbum de 2016 ‘ Lady Wood’, a sueca esbanjou carisma e sensualidade desde o início com “True Disaster”, e continuou empolgando com a faixa título do recente lançamento. Tove Lo agradeceu o público o qual gritava incessantemente no anúncio de “Influence”, da cativante “Moments” e “Thousand Miles”, enquanto em “Vibes” a vocal demonstrou ótima performance de palco. Durante a execução de “Talking Body”, Tove Lo mostrou os seios  – como fizera no show de São Paulo – aumentando ainda mais o volume do público, deixou o palco para uma faixa instrumental e retornou empolgada com “Keep It Simple” e “WTF Love Is”. O público gritou “we love you” e Tove Lo retribuiu, na sequência a sueca anunciou “Flashes” e encerrou o show com “Cool Girl” e “Habits (Stay High)”. Musa do primeiro dia? Pode até ser considerada, mas o carisma e performance de palco da sueca realmente impressionaram os desavisados de plantão.

Era pouco mais de 21h quando James Hetfield (vocal, guitarra), Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e Robert Trujillo (baixo) subiram ao palco principal do Lollapalooza. Divulgando o álbum de ‘Hardwired… To Self-Destruct’, o Metallica tratou de apresentar ao grande público as faixas do novo álbum, a começar com “Hardwired” e “Atlas, Rise!”. “São Paulo vocês são parte de nossa família” bradou James antes de anunciar o clássico “For Whom The Bell Tolls”; “Memory Remains” manteve a empolgação dos presentes que interagiram com James durante toda música. Estranhamente ocorreu uma pausa alardeada por um curto solo de Kirk Hammett e o show prosseguiu com o clássico “The Unforgiven” – detalhe para o violão desafinado de James – e a mescla de faixas do novo álbum com outras mais antigas: “Now That We’re Dead”, “Moth Into Flame”, “Harvester Of Sorrow”, “Halo On Fire”, “Whiplash”, “Sad But True” – faixa totalmente descaracterizada do original –, o petardo “One” ovacionado pelos presentes – mas sem o bumbo – e “Master Of Puppets” com público bradando alto.

Após um longo solo de Kirk – “refresco” aos demais integrantes – retornaram com “Fade To Black” e “Seek & Destroy” – destaque para grande interação entre James e público – antes de deixarem o palco para uma breve pausa. Retornando para o encore, executaram os clássicos “Battery”, “Nothing Else Matters” e “Enter Sandman”, encerrando definitivamente a apresentação após agradecimentos ao público e queima de fogos. No palco, destaque positivo para James – o frontman sabe segurar um grande público –, já Lars demonstrou não apenas ser o mais exausto entre os músicos como foi notório o uso de um china sujando o som e desta forma disfarçando as notas rápidas – “One” sem bumbo? Pecado imperdoável. De uma forma geral, embora o repertório tenha sido muito bem escolhido, demonstrou-se não apenas uma falta de atitude rocker no palco como uma maior empolgação da banda nas músicas novas com opção por não seguir muito do executado originalmente em clássicos – em pontos acaba sendo natural com o passar dos anos, mas para o fã é frustrante. E desta forma, podemos definir o Lollapalooza 2017 como um sucesso em arrecadação e presença de público, uma escolha acertada pela mescla de estilos no line up, mas mesmo com toda estrutura montada, há pontos a serem melhorados para atendimento do grande consumidor do festival.

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