Joe Satriani – 07-12-2016 – São Paulo (Espaço das Américas)

Texto por Leko Soares – Fotos por Studio Brammer Mercury Concerts – Edição por André Luiz

Joe Satriani: Lecionando a arte de entreter sem palavras. O belíssimo Espaço das Américas estava devidamente organizado em fileiras de cadeiras, acolheu um grande público para uma quarta-feira de clima agradável em São Paulo, celebrando os 30 anos de carreira do mestre Satriani pela “Surfing To Shockwave Tour 2016”.

Exatamente às 21h10m, o telão iniciava uma jornada adentrando o planeta do maior “Guitar Hero” vivo em atividade na face da Terra. Em aproximadamente duas horas e meia, o Professor ‘Satchafunkilus’ lecionou para uma plateia brasileira digna de seu tutor, a arte de entreter sem palavras. A batuta utilizada, como sempre, foram suas Ibanez JS, parceiras inseparáveis na construção da identidade que o guitarrista vem ‘cravando em pedra’ ao longo das últimas quatro décadas.

Divulgando o magnífico “Shockwave Supernova” de 2015 e ao contrário do show de 2014 em que o álbum ‘Super Colossal’ foi praticamente executado na íntegra, pode-se dizer que Satriani priorizou um set list mais eclético dessa vez, revisitando boa parte de sua enorme discografia. O último álbum foi representado com cinco das 22 músicas do repertório e a grande diversidade dos números apresentados ao longo da noite serviu de referência para explicar como é possível um show de música instrumental ser dinâmico e entreter sem causar bocejos ou se tornar enfadonho e autoindulgente em momento algum. Pasmem: nem mesmo durante o solo de bateria a banda deixou a peteca cair.

Sobre a Banda (sim, com B maiúsculo), merecem os músicos um parágrafo à parte. “Satcha” é suportado no melhor sentido da palavra, pelo conceituado guitarrista e tecladista Mike Keneally, conhecido por trabalhos com Steve Vai e Frank Zappa, além da dupla do “The Aristocrats”, Bryan Beller (baixo) e Marco Minnemann (bateria), que merecem ser definidos aqui como autênticos malabaristas, tamanha a destreza e precisão que esbanjam frente a seus instrumentos.

Como todo grande mestre, Satriani conhece muito bem o poderio “ofensivo” do trio que tem ao seu lado, sabiamente explorando os dons de cada um deles para tornar sua apresentação ainda mais atrativa ao longo da noite. Como citado anteriormente aqui, coube a Minnemann o primeiro momento solo da noite e ao contrário do que geralmente presenciamos em 9 a cada 10 solos de bateria, o cara soube inteligentemente sair da convencional ‘debulhação’ do kit de tambores e concentrando boa parte da exibição em um bem humorado solo utilizando os pratos, baquetas, hastes e cymbal, encerrou a parte que lhe coube com elegância e irreverência. Quem se levantou para ir ao banheiro ou comprar uma cerveja no dado momento perdeu um número digno do espetáculo. O baixista Bryan Beller protagonizou um interessantíssimo duelo – diálogo talvez defina melhor – com Satriani em um medley de clássicos que incluiu Deep Purple, AC/DC e Jimi Hendrix. Já Mike Keneally, além de um belo solo de teclados, teve vários momentos de destaque ao lado do chefe, protagonizando duos improvisados que beiraram a perfeição.

Falando das músicas da noite, a impressão que novas faixas como “Shockwave Supernova”, “Crazy Joey” – com sua cozinha quase reggae – e “Peregrine Wings” – baião satrianico?! –  deixaram foi de que são fortes o bastante para se manter na linha de frente nos próximos anos. “If I Could Fly” – do ‘Is There Love in Space?’ – foi uma das pérolas que abrilhantaram a noite fazendo tão bonito quanto os momentos de clássicas do quilate de “Always With Me, Always With You”, “Summer Song”, “Crystal Planet” e “Friends”, essas duas últimas, lavando a alma do público após sentida ausência no repertório de 2014. A execução das músicas manteve muito do contexto de estúdio, mas as nuances apresentadas na performance ao vivo acresceram cores especiais às melodias marcantes que caracterizam cada música. As contradições utilizadas nos fraseados com ligados, marca registrada do Professor Satchafunkilus, entortam a cabeça de qualquer guitarrista e a grande virtude do Mestre reside no fato de executar a complexidade de uma forma que ilusoriamente transpareça ao expectador algo simples e possível de se realizar. Ledo engano!

Chegando ao final de uma noite apoteótica, cabe ressaltar a sacada da produção em liberar a frente do palco para quem quisesse ver o show em pé. Para deleite do público, o bis contou com Satriani à frente dos vocais de “Big Bad Moon” do ‘Flying In A Blue Dream’ e o encerramento com a emblemática “Surfing With The Allien”.

A impressão final foi de que, ao contráriodo ‘lugar-comum’ que nossa cultura de massa prega a respeito de shows instrumentais, chatice foi o que não surgiu durante as duas horas e meia de uma autêntica aula de bom gosto, intimismo junto ao público e intimidade frente a seus instrumentos; fica o registro de que o astral foi alto o show inteiro com interação dos músicos com a plateia, ainda que com poucas palavras (falar pra que?) e dos músicos entre si. Perceptível que a banda se entende, gosta de tocar juntos e fazem um grande som. Que outra aula como essa não tarde a retornar ao Brasil. Agradecimentos a Wyl Soares pela colaboração na matéria, Mercury Concerts e Catto Comunicação pela produção do evento e credenciamento de nossa equipe.

Set List Joe Satriani:
Intro
Shockwave Supernova
Flying In A Blue Dream
Ice 9
Crystal Planet
On Peregrine Wings
Friends
If I Could Fly
Butterfly And Zebra
Cataclysmic
Summer Song
Drum Solo(Marco Minnemann)
Crazy Joey
Keyboard Solo (Mike Keneally)
Luminous Flesh Giants
Always With Me, Always With You
Bass Solo + Rock Medley (Deep Purple, AC/DC, Jimi Hendrix) (Bryan Beller)
Crowd Chant
Satch Boogie

Big Bad Moon
Surfing With The Alien

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