David Gilmour – 12-12-2015 – São Paulo (Allianz Parque)

David Gilmour - SP - dez-2015 - Créditos Camila Cara Mercury ConcertsIVTexto por Leko Soares – Fotos por Camila Cara (Mercury Concerts) – Edição por André Luiz

“O céu mandou a terra prometida
Tudo parece bem de onde estou
Pois sou o homem no lado de fora olhando pra dentro”

Relembrando aquela noite que ainda reverbera na mente de milhares de pessoas, nada descreveria melhor o que pude presenciar durante três breves horas, do que o trecho citado acima, retirado de “Wots…uh the Deal”, uma das mais belas canções da carreira do Pink Floyd.

Desde o início da maratona de vendas de ingressos para o show do dia 12, no Allianz Parque em São Paulo, uma das coisas que mais me indagavam sobre o interesse pela vinda de David Gilmour ao Brasil era – “Como um senhor de 69 anos que acabara de lançar um álbum totalmente desprovido de preocupações mercadológicas e que pelas fotos e vídeos promocionais se mostrava tão pouco interessado em se adequar aos padrões atuais da mídia, ainda assim conseguia atrair tanto interesse de diferentes gerações”? A resposta mais óbvia a essa indagação seria – “Porque ele foi membro e um dos líderes do Pink Floyd, uma das mais lendárias bandas de todos os tempos.” É brother, mas obviedade nunca fez parte do arsenal do Sr. Gilmour e mais precisamente no dia 13 de Dezembro, pouco depois da 00h30m, a resposta antes tão óbvia adquiriria ali contornos inesperados na minha mente. Havia algo além do esperado…

David Gilmour - SP - dez-2015 - Créditos Camila Cara Mercury ConcertsI

O primeiro “Ué?” dos muitos que minha mente vislumbrariam naquela noite, veio alguns segundos antes do primeiro acorde, quando ao adentrar ao palco sem muita cerimônia, como se estivesse em um Pub londrino, saboreando seu chá antes de iniciar os trabalhos, o Sr. Gilmour já desconstruía todo padrão de como eu imaginava uma estrela daquela grandeza começando um espetáculo para 45 mil pessoas. O início do Concerto (“C” maiúsculo), com a execução de “5 A.M.”, “Rattle That Lock” e “Face The Stone” ficará marcado na minha mente como o primeiro movimento de uma orquestra que iniciava a execução de uma sinfonia com a dinâmica devida, sem pressa de chegar ao ápice. Ao meu lado, ainda durante a primeira música, alguns comentários engraçados como: “C******, o som tá muito baixo” ou “P****deu pau nesse telão aí, não tá passando vídeo nenhum”, me fariam sorrir sozinho nos minutos seguintes.

A verdade é que como todo bom maestro, David Gilmour sabe muito bem conduzir sua orquestra, em cima e um pouco abaixo do palco. Aguçando a dinâmica e mostrando que poderia fazer ali mesmo no Allianz Arena, o universo vibrar em uníssono, o primeiro clássico floydiano surgiu – “Wish You Were Here”, entoado por 45 mil vozes (exceto por alguns fãs do Snoppy Dog que estavam ao meu lado na Pista Premium), como não poderia deixar de ser. Óbvio que várias lágrimas iluminadas e inebriadas pela brasa e a fumaça de baseados dariam a tônica dali pra frente. Na sequência, as lúgubres e elegantes “The Boat Lies Waiting” (feita em homenagem à Richard Wright) e “The Blue”, do magistral ‘On A Island’ de 2006, indicavam o caminho sem volta para uma noite inesquecível.

David Gilmour - SP - dez-2015 - Créditos Camila Cara Mercury Concerts

A sequência do set list chegaria com um dos ápices do show, trazido pelo mais marcante 7/4 da história, em “Money” e “Us And Them”, obedecendo a sequência natural do ‘Dark Side Of The Moon’. Somente a linhagem dessas duas músicas já garantiria o êxtase da galera, mas além disso, elas também seriam responsáveis pelo segundo “Ué? ” na minha mente ao apresentarem ao público o competentíssimo saxofonista curitibano João de Macedo Mello, que, ou estava muitíssimo inspirado naquela noite ou me pareceu um saxofonista tão bom quanto seu antecessor, o monstro Theo Travis. O moleque arrepiou e se mostrou muito entrosado com a banda, um verdadeiro “Ás” nos duos com David Gilmour.

A primeira parte do Concerto ainda contou com a Floydiana “In Any Tongue” – na minha opinião, a melhor faixa de ‘Rattle That Lock’ a qual teve como destaque a bela voz de Bryan Chambers nos refrãos, além de um dos solos mais “desgracentos” do Gilmour desde sempre – e o final apoteótico com nada menos que “High Hopes”, a música que por si só, justificaria o Pink Floyd pós-Waters.

A segunda parte do show definitivamente me transportou para alguma dimensão paralela (talvez em algum lugar na mente de Syd Barret) ao iniciar com a épica “Astronomy Domine”. Àquela altura, já com “umas brejas a mais na cachola”, eu poderia jurar ao olhar o “grande círculo” que um portal se abriria no meio do palco e seríamos sugados para um buraco negro ou algo do tipo. Após entoar “The icy waters underground”, a execução de um clássico de 38 anos cheirava como um bom vinho envelhecido (ou uma boa cachaça, no nosso caso).

David Gilmour - SP - dez-2015 - Créditos Camila Cara Mercury ConcertsXII

A homenagem à Syd Barret, já obrigatória nos shows de Gilmour, seguiu com a execução daquela que pra mim, é a maior obra do progressivo de todos os tempos: “Shine On You Crazy Diamond”. E com o perdão da palavra: “Puta que o pariu”, que solo introdutório mais inspirado que o David fez nessa noite. Já havia assistido vários e vários vídeos dessa música ao vivo, mas ali, com ela me encarando de frente, foi como “um vento gelado soprando na minha alma”. O quarteto “Fat Old Sun” (e seu solo memorável), “On A Island” (e sua belíssima linha de vozes),“The Girl In Yellow Dress”  (uma refinada ode à Boemia) e “Today” (que peso essa música tem ao vivo) assentaram o público para o final apoteótico que se vislumbrava logo à frente.

Era chegada a hora de “Sorrow”, uma poderosa música já quase empoeirada no lado B de ‘Momentary Lapse Of Reason’ e que Gilmour ressuscitou para transformá-la em uma das melhores canções da noite. Confesso que não é uma música que estaria no meu top 20 do Floyd, mas ao vivo, beirou à perfeição. O jogo de luzes e a firmeza rítmica do maior guitarrista que o Rock Progressivo já conheceu deu a tônica de “Run Like Hell”, mais densa e intensa do que sua versão clássica, no ‘The Wall’.

Para terminar, o duo “Time” e “Breathe (Reprise)” levaram a Allianz Arena um pouco mais próximo do lado escuro daquela noite que ainda guardaria o melhor para o final: “Comfortably Numb” foi a execução mais perfeita de uma música que eu pude presenciar em toda a minha vida. Aqui, eu me encontrava confuso, envolto à magia das luzes proporcionadas por Marc Brickman, mas muito além disso, me encontrava imerso em um tempo paralelo em que meu EU interior clamava para que aquele solo e aquele momento fossem eternos… De repente, acordado pelos berros de “C******”, “P*** que o pariu” e “David Gilmour, seu F**” do meu EU exterior, me deparei com o fim daquela, que foi sim, uma das maiores experiências que um fã de Rock Progressivo ainda pode ter a chance de presenciar na face da Terra.

David Gilmour - SP - dez-2015 - Créditos Camila Cara Mercury ConcertsVIII

Ah, e sobre a resposta não tão óbvia que citei no início da resenha, o que pude concluir é que David Gilmour atrai multidões não somente por ser um ex-Floyd, mas porque consegue ser um atraente paradoxo: sabe ser grandioso e simples ao mesmo tempo, possui um show atual e nostálgico; intimista, mesmo que para 45 mil pessoas e por fim, sabe bem como unir desde fãs die-hard de Rock Progressivo à “admiradores de Snoopy Dog” durante três BREVES longas horas. Vida longa ao Deus da guitarra! Agradecimentos à Mercury Concerts e Midiorama pela realização do evento e credenciamento de nossa equipe.

Banda:
David Gilmour – guitarra e vocal;
Bryan Chambers e Lucita Jules – backing vocal;
Phil Manzanera – guitarra e vocal;
Guy Pratt – baixo e vocal;
João Mello – saxofone;
Jon Carin e Kevin McAlea – Keyboards;
Steve DiStanislao – bateria.

Setlist David Gilmour

1ª parte
5 A.M.
Rattle That Lock
Faces Of Stone
Wish You Were Here
A Boat Lies Waiting
The Blue
Money
Us And Them
In Any Tongue
High Hopes

2ª parte
Astronomy Domine
Shine On You Crazy Diamond
Fat Old Sun
On An Island
The Girl In The Yellow Dress
Today
Sorrow
Run Like Hell

Bis
Time
Breathe (Reprise)
Comfortably Numb

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