Marty Friedman – 30-03-2015 – São José dos Campos (Hocus Pocus Studio & Café)

Marty Friedman - São José dos Campos - mar-2015 - por Andrea LeopoldoV

Texto por Clayton Franco – Fotos por Andrea Leopoldo – Edição por André Luiz

Bandas de Heavy metal e rock em geral que possuem algumas décadas de estrada normalmente passam por mudanças. É normal e faz parte do processo de formação da personalidade musical. Novos ares sempre são bem vindos. Mas existem algumas formações que conseguem não apenas deixar sua identidade nos discos, mas também algo histórico para posteridade musical. Podemos citar a formação do Megadeth que gravou o “Rust in Peace” de 1990 e o “Countdown to Extinction” de 1992. O grupo que na época contava com o fundador Dave Mustaine no vocal e guitarra, também trazia David Ellefson no baixo, Nick Menza na bateria e Marty Friedman na guitarra. Uma formação e tanto meus amigos. E é exatamente sobre Friedman que vamos tratar neste texto.

Friedman foi o guitarrista do Megadeth durante onze anos (1989-2000) e além de ter participado dos anos áureos do grupo, integrou outras bandas como Tourniquet e possui uma prolífera carreira solo que nos brindou com clássicos do naipe de “Dragon’s Kiss” (1988) e “True Obsessions” (1996). Com tanta bagagem musical, foi uma grata surpresa quando a SNS Produções & Eventos anunciou uma extensa turnê deste guitarrista pelo Brasil. O que já se notava nos flyers de divulgação era que a tour abrangeria muitas cidades do interior de vários estados do Brasil (Volta Redonda, Juiz de Fora, Serrinha, Araraquara, Maringá, São Jose dos Campos, etc…), e é com grande satisfação que vejo shows de médio porte crescerem por nosso enorme Brasil e sair do circuito “São Paulo – Rio – Curitiba”. Todos ganham com isso: fãs, produtores, músicos… E foi exatamente um dos shows no interior de São Paulo, mais precisamente o de São José dos Campos, ocorrido na Hocus Pocus Studio & Café que fomos conferir nesta cobertura.

Marty Friedman - São José dos Campos - mar-2015 - por Andrea LeopoldoII

Antes do show principal, tivemos o esquenta da casa com dois guitarristas locais: Douglas Jen e depois Marcelo Souza (que atualmente integra a banda Attomica). Infelizmente devido ao deslocamento de equipe da capital para o interior em uma cobertura no meio de semana (o show ocorreu em uma segunda-feira), não chegamos em tempo hábil para ver estas apresentações. Portanto, vamos direto ao prato principal. Exatamente as 21h30m, Marty Friedman sob no palco empunhando sua guitarra e nos brindando com as linhas criativas dos seus anos de Megadeth. Aqui, já começou a surpresa do show. Diferente de outros artistas que quando vêm ao Brasil trazem o artista principal com grupo de apoio brasileiro, este é apenas Friedman no palco. Um show intimista entre ele e sua guitarra. Linhas de bateria e baixo são em playback fazendo apenas um pano de fundo. Um ótimo deleite para guitarristas de plantão que podem observar melhor o seu modo e técnica sobre o palco. E não falo apenas de observar, mas sim de interagir. Pois é meus amigos, o show ainda é um workshop no qual é livre ao público fazer perguntas para conhecer melhor tudo que Friedman pode nos oferecer.

E foi exatamente nas perguntas onde tivemos os pontos altos e baixos do show. Vamos falar de coisas boas e algum desses pontos altos devido a perguntas inteligentes e respostas criativas/brincalhonas de Marty, que mostra estar bem entrosado após passar praticamente um mês em contato com o caloroso e receptivo público brasileiro. Pudemos saber mais sobre o desenvolvimento de sua técnica exótica de tocar, a maneira como segura a palheta e a utiliza nas músicas. Friedman nos contou sobre a influência dos lugares em que já morou em seu processo criativo de compor linhas de guitarra, demonstrou o quanto a cultura japonesa influenciou sua dedicação e estudo musical, não apenas na dedicação e responsabilidade (algo que parece inerente a cultura nipônica), mas também nos contou como isso influenciou em seus arpejos. Marty citou que os executa em 2 ou 3 cordas e utilizando técnicas de pedal point pegando a chave do arpejo e mudando sua estrutura. Friedman comentou sobre o uso de bends, vibratos expressivos e escalas exóticas que em muito lembra a sonoridade oriental. Além da aula técnica para guitarristas, nos contou histórias de gravações e detalhes curiosos, dentre os quais, que nas músicas do Megadeth com violino ao fundo, na realidade foram utilizados teclados.

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Como citei anteriormente, não foram apenas momentos altos que tivemos neste workshop. Também passamos por alguns momentos mais baixos devido a perguntas, digamos, “imbecis” por parte de alguns presentes.  Mas se a pessoa não tinha noção no que perguntava, Marty compensava o deslize do questionamento com brincadeira, simplicidade e educação. Posso citar duas perguntas deste tipo, ambas sobre assuntos semelhantes: a primeira, quando alguém perguntou o que Friedman achava de uma entrevista do Mustaine na qual disse que trazê-lo ao Megadeth novamente seria a mesma coisa que reimplantar um dente podre na boca. A resposta foi básica: “Ele disse isso? Legal. Próxima”. Em outro momento, quando alguém perguntou se ele recebesse um telefonema do Mustaine para voltar ao Megadeth se ele aceitaria. A resposta muita mais polida e sábia foi: “Se eu receber uma ligação? E como você sabe se eu já não a recebi? De qualquer forma agradeço a todo o tempo que passei com ele e desejo muita paz e sucesso”. Imagino que ao longo de um mês no Brasil e 20 datas de workshop, a quantidade de perguntas deste tipo que ele precisou responder…

Tivemos muitos momentos engraçados também. Quando foi perguntado qual o músico que mais admira e que o influenciou, citou Elvis Presley e SABRINA SATO! Poxa, que tipo de programa televisivo brasileiro a produção local está mostrando para ele Kkkkkk. E o melhor foi quando foi questionado de qual músico brasileiro está gostando de ouvir. Tivemos a inusitada resposta de MC GUI!!! Já pensou, um ótimo show de abertura para uma futura turnê em nosso país. Não, melhor não… Vamos torcer apenas para termos mais tours desse virtuoso e carismático guitarrista por terras tupiniquins.

Cabe também um último comentário sobre essa extensa turnê pelo interior de nosso país. O Vale do Paraíba (região do interior de São Paulo) sempre foi fraco em matéria de shows (nacionais ou internacionais) de heavy metal, punk e rock em geral de porte médio, embora tenha sido berço de bandas como Attomica, Ancestral Malediction, Zumbis do Espaço e Street Bulldogs. Neste cenário, cabe destacar a Hocus Pocus Studio & Café como casa de eventos responsável por colocar a região na rota de shows internacionais. Tivemos a realização do Blaze Bayley (ex-vocalista do Iron Maiden), Marty Friedman, e agora em abril teremos Warrel Dane (vocalista do Nevermore). São José é praticamente a “capital” do Vale do Paraíba, e posso dizer que a Hocus além de muito bem localizada e de fácil acesso na cidade, possui uma estrutura de som, iluminação e bar os quais podem atender à crescente demanda por shows em nossa região. Deixo aqui meus agradecimentos finais ao Sandro Nunes (SNS Produções & Eventos) pela viabilização dessa grande turnê e ao Marcio Santos (produtor da Hocus Pocus Studio & Café) que possibilitou a cobertura do evento através do credenciamento do nosso veículo de imprensa.

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Comments

  1. Esses shows de médio porte, deixam o público satisfeito pela proximidade e clima intimista, mas mostra o quando a indústria fonográfica, vem pouco a pouco perdendo o poder, não vai deixar de existir, mas vai ter que ser bem polivalente, legal o texto, confesso que não conheço/curto muito o trabalho dele ou do megadeath, mas é bom o fato de cidades do interior conseguirem fazer shows com lendas do metal boa matéria!

  2. Excelente resenha, e excelente para quem pode ter a oportunidade de acompanhar aos workshops e shows de um artista deste porte em cidades que vão além da rota principal de shows!

  3. Que bacana. Excelente resenha. Lendo o texto temos uma base exata do que foi esse show… Maravilhoso!
    As cidades do interior merecem mais eventos como este.

    Parabéns \m/

  4. muito legal o evento, com um músico de peso e a resenha foi bem detalhada e escrita. parabéns aos organizadores!

  5. A resenha foi muito boa e mostra que o pessoal do interior também merecem show e workshops desse porte nessa região. Mesmo morando na capital de São Paulo, espero que tenham mais eventos deste tipo nas cidades do interior.