Underground – A união que não faz a força, desabafo sobre a cena atual

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Por Jack The Ripper – Eduardo Jr.
Repórter/Fotógrafo – Equipe Santos/SP
Contato:
jack@metalrevolution.net

Underground (na língua inglesa, o mesmo que “subterrâneo”) trata-se de uma expressão usada para designar um ambiente cultural que foge dos padrões comerciais, dos modismos e que está fora da mídia, também conhecido como movimento ou cena. A cultura underground também pode ser chamada de contra-cultura. Analisando…

O termo Underground ganhou notoriedade a partir da década de 60 e foi utilizado para definir os movimentos artísticos e intelectuais que começaram a surgir na época. Hoje, na cena da música pesada (a qual estou ligado diretamente) é comum ver bandas, promoters ou ‘profissionais’ se utilizando falsamente do termo “underground” e denominando eventos ou determinadas bandas/músicos como sendo parte desta cena. O termo remete a algo independente, sem mídia, sem apoio e etc, mas, analisando friamente, o que todos em meio ao underground justamente buscam é a projeção, a exposição, o destaque na mídia, controverso não?

Muitas das bandas ditas grandes hoje em dia e que se vangloriam de terem sido erguidas com bases no underground não honram na prática o que pregam. Quem é do underground, ou lucra com ele de alguma forma, tem todos os seus argumentos, discursos e pseudo ideologias baseadas no princípio da união e da cooperação mútua entre os envolvidos, porém, contudo, entretaaaaaanto, eu pergunto: será mesmo? Vejo este tipo de conduta hoje em dia com extrema desconfiança, exceto por algumas raríssimas exceções de pessoas, veículos de comunicação, bandas e locais que realmente apóiam a cena de fato e que levam a bandeira do underground com honestidade e atitude, porém, infelizmente, tratam-se de raríssimas exceções a uma triste regra.

Temos hoje inúmeras bandas que surgiram do underground, conseguiram uma certa notoriedade na cena, ganharam o mundo e que após isto, viraram literalmente as costas para esta mesma cena que os ergueu, sem possuir um pingo de noção de união e corporativismo outrora pregado por eles; não mais possuem o espírito de união com relação a bandas que estão começando ou que não possuem a mesma notoriedade, e novamente por essa razão, eu questiono: isto é união? Apoiar as raízes? Atitude? Quando questionadas a respeito, estas bandas se apóiam na premissa de que hoje em dia são “profissionais” e etc, aquela velha máxima de que dinheiro está em primeiro lugar e move tudo; que o amor pela música, pela ideologia, pela atitude sempre é algo dito como sendo prioridade somente da boca para fora, pois na verdade isto é algo secundário. Estas mesmas bandas “grandes” em seus shows ou aparições, pregam e usam o nome do underground até hoje, colocando-se como uma espécie de porta voz da cena, o que considero ridículo pois a teoria e a prática se diferem…

Hoje em dia para se obter um destaque em revistas consagradas do gênero, não é preciso ter qualidade musical e atitude, isto é secundário e também relativo já que gosto musical é algo particular e difere de pessoa para pessoa, mas, de um modo geral, como tudo na vida, basta ter bolso forte e disposição para pagar e você ou sua banda facilmente conseguem ter uma página inteira em uma revista de nome na cena, ou um destaque na “index” de qualquer site forte especializado. É muito comum ouvirmos certas “lendas” na cena, porém, com um fundo de verdade, de que algumas bandas muitas vezes fracas em qualidade e fortes no bolso pagaram para abrir shows de bandas consagradas, o famoso “jabá” que é antigo na música, mas, como se prega a pseudo união na cena underground… Bandas com certo nome recebem também este “jabá” para permitir que qualquer banda disposta a pagar abra seus shows, casas consagradas cobram por isto e etc, e o pior é que existem bandas que efetivamente pagam por isto e reforçam este tipo de conduta lamentável.

Temos casas de shows famosas em SP, no Brasil e creio que também no mundo, onde bandas novas não possuem nenhum tipo de espaço e apoio, exceto bandas cover, que obviamente incorporam e transmitem a energia da banda que homenageiam, ou trocando em miúdos, estão todas “Gozando com o órgão alheio”, porém, atraem público maior e consequentemente lucro maior para todos os envolvidos no evento e justamente por isto o “apoio” a este tipo de banda trata-se de algo indiscutivelmente maior por parte das casas especializadas, e de toda a mídia. Nesse ponto, vejo que a culpa disto é do público que movido pela paixão a determinada banda, deixam de lado a ideologia e a cena como um todo. Logicamente que com relação as casas especializadas e também com relação a imprensa escrita ou falada, eu entendo e compreendo que hoje em dia manter um estabelecimento de portas abertas ou um veículo de comunicação funcionando é algo totalmente complicado, até mesmo pelas dificuldades econômicas e operacionais que são exigidas para tal, porém, o apoio a cena independente é totalmente nulo, praticamente não existe, e quando é dado, salvo exceções, as bandas são exploradas, mal compreendidas e desacreditadas.

Consursos para levar bandas a festivais grandes, a selos de gravadoras e etc, são sempre alvos de boatos sobre sua veracidade e credibilidade, bem como do compromisso com a música pura e simplesmente, sempre deixando no ar boatos sobre “cartas marcadas” e etc, mais um ponto lamentável para a cena. É inadmissível a meu ver, que uma banda, seja obrigada a pagar para tocar. Elas gastam dinheiro com ensaios, com gravação, com aparelhagem, deixam o sangue e o suor nos ensaios e produzem o que deveria ser o único e relevante atrativo para se apresentar, a música e somente a música deveria ser o termômetro para estas escolhas e abertura de espaços.

A intenção de quem esta começando é sempre divulgar o trabalho e as vitrines por sua vez exploram através de valores (monetários) para dar espaço a estas bandas. Isto a meu ver é um abuso, uma falta de consideração com as bandas e com quem esta batalhando um lugar ao sol, por isto a cena esta fraca, com bandas ridículas e vazias, sem feeling, sem sentimento e infelizmente, mesclar qualidade musical e ideológica com força monetária é como encontrar uma agulha no palheiro. Hoje em dia, somente a força monetária é que esta sendo observada. Esta dita exploração e pseudo apoio a cena não se restringe tão somente aos pubs e casas de show, como também contamina revistas, sites, rádios, veículos de divulgação e comunicação diversos, sempre salvo as raríssimas mas existentes exceções.

Antigamente, lendo as histórias de bandas consagradas e monstruosas, tipo Iron Maiden, Slayer, e etc, nós que somos músicos nos acostumamos com a idéia de que algum dia, um olheiro vai ver o nosso show, vai acreditar no nosso trabalho e vai levar a banda adiante: cuidado!!! Muito cuidado com essa ilusão!!! Existem pessoas na cena, que iludem as bandas novas, iludem os músicos com promessas de crescimento, projeção e apoio, e as bandas, com imensa sede de mostrar seu trabalho, acabam se rendendo as exigências dos mesmos e fazem com que este tipo de situação se torne uma armadilha, em que cada vez mais as pessoas e bandas se tornam vítimas.

Hoje em dia é comum diante da lucratividade que é gerada, presenciar bandas “fakes”, bandas digamos que “humorísticas” sendo vangloriadas e tratadas como sendo bandas de verdade e que rapidamente ganham a cena, invadem a mídia, recebem enorme destaque e apoio de todos os lados. Nada contra bandas que possuem este tipo de linha musical e de “ideologia”, apesar de não concordar com as mesmas, eu as relativamente respeito até porque a culpa é de quem vangloria este tipo de “banda”, ou seja, o próprio público, isto reflete a fraqueza da atual cena, a maioria vangloria bandas de mentira pela falta de bandas de verdade competentes e com conteúdo.

Enquanto bandas que tiram sarro da cena e da história da música pesada ganham cada vez mais espaço, bandas sérias, competentes, porém de bolso fraco, são trancafiadas no ostracismo e fadadas a viver no dito “underground” já que a união neste caso não faz a força, a não ser na falsa pregação de quem conseguiu por N razões e relativo mérito atingir uma certa projeção e reconhecimento, e que continua a levantar a bandeira do underground. Bom, pelo menos algo eles ajudam a erguer, nem que seja somente a bandeira…

PS.: me reservo no direito de não citar nomes, meu objetivo com este texto é somente alertar as bandas e as pessoas que estão no underground e na cena, e não apontar o dedo a ninguém. Cada um que conclua da forma que achar melhor.

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