São
dezesseis anos desde a primeira e única passagem até
o momento dos ingleses pelo Brasil. Em meio a crise de violência
desencadeada na cidade de São Paulo, The Sisters Of Mercy
desembarca na capital paulista para uma apresentação
histórica no palco da Via Funchal. Em entrevista coletiva,
agendada em cima da hora diga-se de passagem, Andrew Eldritch
destila sarcasmo e ironia com relação a história
da banda, a fase atual e assuntos da atualidade. Confira abaixo
os pontos destacados dos quase 45 minutos de entrevista coletiva.
APRESENTAÇÕES
NO BRASIL
Pergunta
– O que vocês esperam do show (Via Funchal)?
Andrew – Não me recordo que passou tanto
tempo assim. Sinceramente, não consigo ter noção
do porquê demorar 16 anos pra tocarmos no Brasil, não
consigo lembrar nada sobre o show de 16 anos atrás. Mas
espero que o show seja muito bom, pra mim e para o público.
Pergunta
– O álbum First & Last & Always foi o que
mais sucesso fez no Brasil. Os outros também, mas esse
contém vários sucessos. Nos últimos set lists
da banda apenas a faixa título foi incluída e muitos
clássicos ficaram de fora. O público brasileiro
pode esperar por músicas como ‘More’ e “Walk
Away’ neste show?
Andrew – (ironicamente)
Não.
Pergunta
– Essa tour será gravado para lançamento em
DVD?
Andrew – (ironicamente)
Não.
Pergunta
– Serão executadas músicas inéditas?
Andrew – Sim,
devemos tocar entre 6 e 8 músicas inéditas, incluindo
a faixa “Still”.

|
NOVA
FASE DO SISTERS OF MERCY
Pergunta
– Há quanto tempo esta formação
tem tocado junto?
Andrew – São
cinco meses, mas este período tem sido praticamente
todo na estrada tocando, por isso já estamos bastante
entrosados.
Pergunta
– Dentre vários comentários sobre
os shows na Europa e EUA, muitos citaram a ausência
de um baixista. Faz falta realmente para banda ou vocês
preferem pré-gravar o instrumento como no caso
da bateria?
Andrew – Não
entendi porque o baterista não está aqui
ainda... (risos). Quando uma música necessita do
baixo, um dos guitarristas toca o instrumento porque não
consistem apenas em meros guitarristas, eles podem tocar
ambos instrumentos. Não temos apenas um baixista
em específico. Acho que quatro músicas necessitam
de baixo, mas várias músicas são
compostas pela máquina, para máquina e ficam
melhor com a máquina.
Pergunta
– Há informações que músicas
da banda estão sendo tocadas ao vivo em diferentes
versões quase heavy metal. Gostaria de saber se
isso corresponde a verdade.
Andrew – O
Sisters Of Mercy sempre foi um pouco uma banda de metal,
e se o Sisters hoje em dia tende mais pra esse lado está
tudo OK.
Ben – Muitos falam que Sisters executa
heavy metal, mas na verdade heavy metal é um som
muito mais pesado e o Sisters faz um som muito mais leve...
Andrew – Algumas de nossas bandas favoritas
são de metal, como Motörhead e Deftones, mas
não gosto de todo metal como a banda Gore, por
exemplo. Nada contra eles...
Pergunta
– Gostaria que fosse feito um paralelo entre a banda
nos 90 e a formação atual.
|
| Andrew
– Essa
formação é muito mais jovem e faz de
mim muito mais jovem, e com mais energia pra tocar. Essa é
a tour mais longa já feita e se fosse realizada com
a outra formação, provavelmente todos já
teriam morrido. |
Pergunta
– Sobre o material novo, a banda toda participa do processo
de composição? Vocês devem lançar esse
material em breve?
Andrew – A
música que estamos fazendo agora com essa line up deve
sair antes do que as gravadas com a antiga formação,
por problemas internos envolvendo o nome Sisters Of Mercy.
HISTÓRIA
DA BANDA
Pergunta - Faz muito tempo que a banda não lança
um álbum. O que uma gravadora ‘majeure’ deve
fazer para conseguir com que o Sisters Of Mercy grave novamente?
Andrew – Teríamos
que achar uma gravadora que fosse tão ambiciosa quanto
a banda. A Warner por exemplo, oferece downloads em seu website
oficial à U$ 1 por música e teriam oferecido a U$
0,01 pelo download de cada música do Sisters. Várias
bandas já pensam nisso, sobre o controle que as gravadoras
tem feito sobre elas. Muitas bandas preferem ficar famosa a terem
sucesso. O Sisters não precisa disso no estágio
que alcançamos.
Pergunta
– Foi noticiado que o Sisters Of Mercy e o The Mission não
tem bom relacionamento. Gostaria de saber se isso é verdade
ou é apenas lenda?
Andrew – Isso
é só história.
Pergunta
– First & Last & Always?
Andrew – O
First não foi bem produzido, o que prejudicou um pouco
a interpretação sobre a sua sonoridade. Este álbum
é irônico, porém o público baseia sua
vida numa interpretação errada sobre esse trabalho.
Na época em que gravamos esse trabalho usávamos
camisas havaianas, mas em um certo show que fizemos em Manchester
do nada trajamos roupas negras, incluindo vestido longo, e até
hoje todos consideram aquele como o visual definitivo da banda,
algo que não consigo entender.
COVERS
Pergunta – A banda Shaaman gravou um cover para a música
‘More’ do Sisters, você já ouviu essa
cover? O que acharam dela?
Andrew – Nunca
ouvi, não conheço a banda. Você é um
integrante do Shaaman?
Repórter – Nesse momento eu não
gostaria de ser um...
Pergunta
– Várias bandas fazem covers de metal na linha gótica
de músicas do Sisters. O que acha dessas bandas? Vocês
gostam dessas versões?
Andrew – Conhecemos
a cover do Paradise Lost, banda com a qual já dividimos
o palco. Soubemos sobre a versão do Cradle Of Filth, fui
até convidado pra participar da versão (para faixa
‘No Time To Cry’, lembra um repórter), mas
acabou não acontecendo. Várias bandas que coverizam
Sisters gravam músicas antigas, eu gostaria de vê-las
gravando covers das músicas mais novas.
PENSAMENTOS
E CONVICÇÕES DE ANDREW
Pergunta – Li numa entrevista antiga onde o Andrew
falava que a Internet era algo irrelevante para a música.
Eu queria saber como ele vê a relação
entre música e Internet hoje em dia.
Andrew – Entrevistas
também são irrelevantes para música.
Apenas não gostaria de fazer entrevistas em dias
de show.
Pergunta
– Vocês são interessados em outras formas
de expressão artística? Acham isso fundamental?
A ausência de interesse é que tem tornado a
pop music de péssima qualidade?
Andrew – Os
músicos devem ser interessados principalmente por
política. Acho que não tenho capacidade pra
escrever um romance ainda, e que não sou um bom músico,
mas vocês tem feito retornarmos a música de
tempos em tempos. Obrigado por terem vindo, pois me fazem
continuar a tocar... Não pretendo chegar logo no
fim dos meus dias.
Pergunta
– No website da banda é traçada uma
linha evolutiva (onde os jornalistas são colocados
como a merda). Mas a pergunta seria sobre quem estaria no
topo desta linha evolutiva?
Andrew – No
topo estaria à diva (?!). Com relação
aos jornalistas em nossa carreira encontramos alguns muito
ruins... os jornalistas brasileiros estão um pouco
mais acima nessa linha.
Pergunta
– Foi citado que todo músico deveria ter um
pensamento político. Gostaria de saber o que você
acha da postura do Bono (Vox, líder do U2), se você
concorda ou acha que isso tudo é puro marketing?
Andrew – Embora
não concorde com o Bono em várias coisas,
acho legal que ele esteja engajado. Embora não concorde,
por exemplo, com bandas nazistas, acho legal que eles tenham
sua visão política e demonstrem isso. |

 |
Pergunta
– Você acha que o caminho para as bandas é
saírem das gravadoras majeures e apenas firmarem contratos
de distribuição com as mesmas?
Andrew – É
o melhor caminho para as bandas, mas acontece que a mídia
demonstra uma aversão às bandas que estão
fora das majeures. Isso dá uma maior liberdade criativa.
Pergunta
– Muitos fans se vestem e pensam influenciados pela banda.
O que vocês acham sobre esse fato?
Andrew – Conheço
o público mais gótico que se espelha na banda e
não vejo mal nenhum nisso, mas o legal é que o público
do Sisters é diferente, não é totalmente
gótico. A banda está aberta para donas de casa,
motoqueiros, drag queens e por aí afora, não necessariamente
apenas os góticos.
Simon Denbigh – Achava que no Brasil todo mundo
andava de biquíni na rua, mas vejo que a coisa é
diferente.
COMENTÁRIOS E CURIOSIDADES DA COLETIVA
- Andrew Eldricth
comentou ironicamente após dada pergunta que Adam Pearson,
recem saído da banda, do Sisters está tocando atualmente
com MC5;
- Perguntado sobre a origem do nome The Sisters Of Mercy, Andrew
balançou
a cabeça negativamente e passou o microfone para Ben Christo,
o mais novo da banda, o qual comentou de forma descontraída
'entrei na banda em 1981 e... esqueci';
- Na sessão de fotos após a coletiva, todos integrantes
pousaram para fotos ao lado das equipes de reportagem, exceto
Andrew que saiu rapidamente após o último clique
dos fotógrafos.