Dream Theather – The Astonishing

Dream Theater - album 2016

Dream Theather – The Astonishing
CD –
 Roadrunner Records (2016)

Texto por Leko Soares – o conteúdo expresso reflete a opinião do autor, é de inteira responsabilidade deste
Edição por André Luiz

Antes de qualquer análise em relação ao objeto dessa resenha, uma questão chave a se levantar aqui é: o que difere uma Ópera-Rock de um álbum conceitual? Por mais que na maioria dos casos sejamos induzidos a colocar esses dois tipos de obras dentro do mesmo balaio, é inegável que há diferenças relevantes a se levarem em conta para o entendimento de álbuns dessa linhagem. É fato que toda Ópera-Rock é conceitual, porém, se invertermos a sentença, temos um quadro diferente: nem todo álbum conceitual é uma Ópera-Rock. Aliás, a grande maioria de álbuns desse tipo não se encaixam nessa denominação. Partindo dessa premissa, a maneira justa de se encarar o novo trabalho do Dream Theater é tratando-o como uma peça ímpar em sua carreira. Portanto, o que eles entregam ao público dessa vez, não cabe comparações com o restante da discografia da banda, ainda que esta seja pontuada por importantes e já clássicos álbuns conceituais.

O gênese dessa obra surgiu da mente do guitarrista John Petrucci, que há cerca de dois anos idealizou um enredo baseado em um mundo fantástico com personagens que vivem em um Império opressor, no qual a música esquecida de outrora se resumiu a ruídos executados por máquinas (Nomacs). Nesse contexto surge um ‘salvador’ com a missão de levar a verdadeira música para as pessoas e recomeçar um novo mundo.

Pois bem, com as primeiras demos finalizadas, a banda recrutou o maestro David Campbell, famoso por suas orquestrações em álbuns de estrelas pops do calibre de Paul McCartney, Adele, Beyoncé dentre outros, para se juntar à empreitada. E o resultado desse esforço conjunto é o que nos é entregue de forma sublime em ‘The Astonishing’.

Voltando ao início dessa resenha, é necessário frisar que o esforço de julgar uma obra com essas características apresentadas pela banda reside principalmente no fato de que, para que seja analisada, ela deva ser referenciada por trabalhos do mesmo segmento, e na linhagem de Óperas-Rock, é necessário citar obras como a pioneira ‘Tommy’ do The Who, a quase maníaca ‘Lamb Lies Down On Broadway’ do Genesis e óbvio, a obra mestra ‘The Wall’ do Pink Floyd. Fugindo do risco de cair na armadilha anacrônica que seria comparar a qualidade de trabalhos produzidos em contextos tão díspares, me aterei aqui às similaridades na estrutura de tais obras para tentar dissecar melhor o trabalho criado pelos líderes do Prog Metal mundial.

Todas as Óperas-Rock aqui citadas só se tornaram clássicos de seu tempo porque seus criadores souberam unir em um mesmo quadro os elementos necessários para que o público compreendesse a intenção proposta por elas. São estes os elementos principais:

  • uma boa trama;
  • o clima musical coerente com a estória contada;
  • ótimas músicas (o mais importante de tudo), ordenadas criteriosamente para prender o ouvinte ao longo de todo o trajeto percorrido.

Tendo em mente esses tópicos, chegamos finalmente a ‘The Astonishing’ – essa Ópera-Rock é composta de dois Atos, divididos em 34 músicas que somam cerca de 2 horas e 10 minutos de audição. É um longa metragem, no melhor sentido da palavra e assim como não faria muito sentido para a grande maioria da população brasileira que não domina fluentemente o inglês, acompanhar um longa metragem estrangeiro somente assistindo as imagens e ouvindo os diálogos do filme, sem as legendas, o mesmo pode ser dito aqui: por mais que, para se gostar de músicas, bandas e até mesmo estilos,  não seja necessariamente obrigatório entender o que os caras estão tentando dizer (e isso também tem sua parcela de verdade aqui), fato é, que, ouvir sem se interessar em compreender o que está acontecendo ao longo de uma Ópera-Rock de 2 horas e 10 minutos é como comprar um bilhete e viajar somente até a metade do caminho, ou seja, o que a banda exige aqui de você é uma interação completa com o que é proposto.

Não basta ouvir, é preciso entender o porquê de  uma música mais pesada como “Lord Nafaryus”, de repente, irromper em uma calmaria quase angelical ou o contrário: porquê em “Road To Revolution”, James LaBrie (destaque absoluto dessa empreitada) parte de uma linha melódica limpa e tranquila para uma interpretação áspera e soturna. Momentos assim são despejados em seus ouvidos aos montes ao longo do trabalho e por mais que o álbum dê condições para que você consiga curtir somente a música pela música, saiba que no caso de ‘The Astonishing’ você terá chegado somente à metade do caminho que o Dream Theater lhe propõe.

Nas primeiras audições do álbum, ainda sem as letras, a impressão que tive é de que apesar de muitos bons momentos, a banda havia se perdido em meio a introduções de piano e músicas lentas em excesso. Talvez, ao contrário dos álbuns clássicos citados nesse texto, esse ponto pode ser exatamente o passo em falso que a banda cometeu no momento de cativar os ouvintes de primeira viagem (me refiro ao conceito Ópera-rock). No entanto, após audições sequentes com as letras em mãos (ou libreto, se preferirem) e os personagens colocados nos seus devidos lugares, finalmente consegui submergir ao imenso oceano que o álbum proporciona.

A forma como a banda musicou cada momento e falas e como se fez entender, sem precisar de sinopses extras, tornou o trabalho uma peça completa, que se inicia e encontra o fim em si mesma. É óbvio que conseguimos sentir a presença de outros gigantes na música do Dream Theater, como o hino que evoca o floydiano ‘The Wall’ em “Brother, Can You Hear Me”, o espírito Yes do início de “Hymn Of A Thousand Voices”, ou sendo mais contemporâneo aos caras, as inferências a sonoridades mais do que bem vindas de bandas como Symphony X na primeira parte de “Life Left Behind”. Porém, o grande trunfo deste “The Astonishing” é que ele consegue o mérito de entregar ao fã da banda algo novo e relevante, façanha extraordinária em se tratando de uma banda em seu décimo terceiro álbum de estúdio.

A ironia maior que este trabalho nos evoca, no entanto, é que o Dream Theater parece ter encarnado os heróis e vilões de sua própria narrativa – ao vocar a “música” mecânica e sem vida dos Nomacs como o mal que assolava o Grande Império do Norte, recordamos em alguns momentos, de um mal que assolou sua própria discografia. Por outro lado, o bem trazido através da dádiva da música verdadeira, forjada nas emoções e capaz de reanimar almas, exatamente essa que a banda nos entrega agora, é o que permite que seja possível uma resenha da maior banda de Prog Metal de todos os tempos sem a necessidade de comentários a cada parágrafo sobre o virtuosismo dos integrantes, que, sem chover no molhado, cumpriram e bem o seu papel (inclusive o às vezes contestado Mike Mangini), mas que se reinventando, fizeram na prática o maior louvor que poderiam ter feito a verdadeira dádiva que os trouxe até aqui: a Música!

Integrantes:
James Labrie – vocal
John Myung – baixo
John Petrucci – guitarra
Jordan Rudess – teclado
Mike Mangini – bateria

Faixas Ato I:
01- Descent Of The NOMACS
02- Dystopian Overture
03- The Gift Of Music
04- The Answer
05- A Better Life
06- Lord Nafaryus
07- A Savior In The Square
08- When Your Time Has Come
09- Act Of Faythe
10- Three Days
11- The Hovering Sojourn
12- Brother, Can You Hear Me?
13- A Life Left Behind
14- Ravenskill
15- Chosen
16- A Tempting Offer
17- Digital Discord
18- The X Aspect
19- A New Beginning
20- The Road To Revolution

Faixas Ato II:
01- 2285 Entr’acte
02- Moment Of Betrayal
03- Heaven’s Cove
04- Begin Again
05- The Path That Divides
06- Machine Chatter
07- The Walking Shadow
08- My Last Farewell
09- Losing Faythe
10- Whispers In The Wind
11- Hymn Of A Thousand Voices
12- Power Down
13- Astonishing

Confira abaixo o áudio de “The Gift Of Music”:

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